EXTRAVIADA 14

Prima querida,
Só mesmo você para quebrar minha rotina de procrastinação meditativa. Vou abrir uma exceção em nome do bem que lhe quero. Mas sinta-se advertida: falar do nosso presente tem sido péssimo para a digestão.
Lamento, mas o lugar que você lembra sobrevive apenas na sua cabecinha de emigrada. Nessa terra em transe, de heróis sem nenhum caráter, deus e o diabo nunca se deram tão bem.
Continuamos fiéis ao destino de importar qualquer coisa do primeiro mundo, essa prática que já nos trouxe tanto progresso. Nacionalizamos a intolerância religiosa, os copos Stanley e as táticas de disparo em massa de fake news. Para provar nossa lealdade, estamos inclusive comprando os agrotóxicos proibidos por aí. Alguém tem que pensar no desemprego que essa proibição pode causar no mundo desenvolvido. Agro é tudo, lindinha.
Uma vez você disse que quanto menos entendia nosso país, mais o amava. Sempre achei uma gracinha esse seu romantismo. Até eu acreditei. Mas isso foi antes de achatarem a terra e confundirem cruzes com Glocks. Não há mais espaço para ingenuidade. Está tudo muito bem entendido agora. Éramos felizes em nossa ignorância? Não, éramos cegas mesmo. Ainda me espanto com a rapidez com que tudo ruiu: foi semear um pouco de pânico conservador e um mundo de fundamentalismo, negacionismo e bichos escrotos surgiu dos esgotos.
Estou encantada com o entusiasmo que esse tal de metaverso está causando nas pessoas. Ninguém ainda sabe direito como será. Mas se vem de uma empresa íntegra e transparente como a do Marquinhos Zuca, deve ser coisa boa. Aposto que fará um bem enorme para a saúde mental de nossas crianças e adolescentes, que já evoluiu tanto com as redes sociais.
Outro dia, tive um jantar muito interessante com nossa amiga Lina. Você não acredita no que ela fez: pediu um prato com carne de porco. Diante da minha surpresa, explicou que tinha mudado de igreja e já não era pecado atacar uma bisteca. Simples assim. Achei isso incrível. Fiquei pensando se a lógica religiosa pode ser aplicada também à medicina. Vou procurar um médico que não implique com minha taxa de glicose. Quero me acabar, sem culpa, num prato de brigadeiro.
Uma caixinha de surpresas, essa Lina. Recentemente, noivou com uma celebridade da internet: um youtuber de cabelo descolorido, calças apertadas ao ponto de dividir os testículos e grande ativista antivacina. No seu canal, defende com unhas e dentes o direito individual de ferrar o direito coletivo. É tão bonitinho ver o casal chegando na praia e compartilhando democraticamente seu gosto musical no paredão do carro. Mas perdoemos a Lina. Afinal, se não fosse pelo mau gosto, ela não teria gosto nenhum, né?
Bom, já falei demais, querida. Faça o favor de limpar o veneninho que vazou nas letras, que vou voltar para a alienação dos meus livros. Não sei quando lhe escrevo de novo. A arte da protelação não permite muitas distrações. Cuide-se e um beijo estalado.
C.

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