Deus me Louvre

Cresci vendo os impressionistas e pós-impressionistas na sala de jantar. Minha mãe tinha réplicas de quadros que para mim se tornaram emblemáticos como “O Cavalo Branco” (Paul Gauguin, 1898), que é todo verde por causa das folhagens. A luz que incide sobre ele foi filtrada através das folhas verdes da grande árvore presente no quadro. E claro que isso me influenciou desde cedo para a quebra de paradigmas, ou no mínimo para procurar ver sempre algo mais nas coisas.
Depois me apaixonei pelas metáforas do surrealismo de Magritte, principalmente o quadro-provocação “A Traição das Imagens” (1928/29), que traz a imagem realista de um cachimbo acompanhada pela inscrição “Isto não é um cachimbo”. E o cachimbo lá, bem pintadinho, mas não sendo um cachimbo e sim apenas a representação de um cachimbo na pintura.
Do renascimento, me apaixonei pelo museu a céu aberto que é Florença. E em Paris, quando cheguei ao Louvre, eu já tinha percorrido uma boa parte da cidade, principalmente o D’Orsay onde tive a Síndrome de Stendhal quando vi alguns dos originais impressionistas e pós-impressionistas da sala lá de casa. Mas eu já tinha conhecido Picasso em Madrid, e ficado fã do cara que desconstruiu tudo, que quis inserir o conceito da quarta dimensão nas telas, o tempo na pintura, como uma película de cinema dissecada. Do cara que podia pintar igual a Da Vinci, mas quis inventar sua própria onda. Por isso que, apesar de estar a metros da Mona Lisa, faltando apenas entrar no Louvre através da Pirâmide, resolvi me questionar se eu não estava sendo escravo da minha obsessão em querer aproveitar tudo do mundo da arte na Cidade luz. Porque me veio outra luz, e no fundo, ou no raso mesmo, descobri que eu queria mesmo era colocar os pés descalços no laguinho da pirâmide e passar a tarde ali sem fazer nada.
Assim, não entrei no Louvre, não vi a Mona Lisa, quem Moacy Cirne revelou ser uma roqueira dos anos 70 na Caicó de Todos os Seridós. E eu digo mais: roqueira fã de David Bowie, da androgenia e da polêmica – achei a danada muito parecida com uma senhora hippie que sentou ao meu lado no laguinho da pirâmide.
Oh Mona deixa eu ir / Oh Mona eu vou só / Oh Mona deixa eu ir pro sertão de Caicó…

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