Era o que eu tremia

Sempre fui apaixonado pelas palavras. Assim como o poeta Manoel de Barros, eu primeiro me apaixono pela palavra e depois vou procurar um sentido para ela. Primeiro a palavra sentida, depois seu sentido.
E foi assim com a apalavra ausência. Quando criança, eu criava histórias em quadrinhos. Minha preferida era “Perna de Fogo” – um cowboy surfista. Ele pegava onda todo paramentado, com roupa de cowboy e tudo. Acho que isso já anunciava minha pluralidade futura, uma visão holística das coisas, como toda criança em seu mundo brincante onde tudo é possível. Pois bem. Um dia eu escutei a palavra ausência e me apaixonei por ela. E senti que eu precisava usá-la. Então introduzi essa apaixonante palavra em um dos capítulos da saga de Perna de Fogo. “Perna de Fogo entra no bar e nota a ausência de dois forasteiros”. E os forasteiros lá. Quando mostrei para Junior (um irmão de rua mais velho, hoje mais conhecido como Pereirinha, que sempre lia minhas histórias em quadrinhos), notei que ele ficou sem jeito para explicar o uso inadequado da nova palavra que descobri. Mesmo com todo o cuidado e carinho que ele teve comigo, voltei arrasado para casa.
Muitos anos depois, aconteceu algo parecido com uma das filhas de Junior. Ela era criança e estava contando uma história para mim. Quando ela disse o nome “Maga Patajólika” eu fiquei sem jeito de explicar que o nome da bruxa era Maga Patalójika. Eu não disse. Lembrei de como fiquei arrasado na época que eu soube o significado da palavra ausência, que eu tinha usado na saga de Perna de Fogo.
Eu sempre gostei de brincar com as palavras, e as palavras sempre gostaram de brincar comigo. Um dia, ainda criança, eu estava lendo uma revistinha e, na história, João Bafo de Onça tinha sequestrado Minnie e levado-a para dentro de um barco, que estava ancorado num porto. Lembro até hoje da cena de Mickey no exterior do barco, olhando pela escotilha Minnie amarrada por João Bafo de Onça. Era noite, e dava pra sentir que fazia frio, pelo menos foi o que imaginei. Então quando eu li Mickey dizendo para ele mesmo “Era o que eu temia”, eu pensei: deve estar escrito errado, deve ser “Era o que tremia”. Eu ainda não conhecia a palavra temer, por isso não temi novas possibilidades de construção das frases e suas experiências sensoriais.
Na adolescência escutando Caetano entendi “O amar eterno é uma lagoa escura” em vez de “No Abaeté tem uma lagoa escura”. Sempre desconfiei que não era como eu tinha entendido, mas eu gostei de ter entendido desse jeito e não fui atrás de saber se era assim, justamente para ficar com isso por mais tempo.
No filme “Febre do Rato” (de Cláudio Assis, 2012), tem uma cena que o poeta Zizo (Irandhir Santos) recita para Pazinho (Matheus Nachtergaele) e quando termina o poema Zizo pergunta pra Pazinho o que ele acha, e Pazinho diz: “Eu acho bonito. Eu gosto de coisa que não entendo”.
Vi um documentário no Netflix sobre o produtor Danny Fields (“Danny Says”) que ajudou a lançar artistas inovadores como Iggy Pop e Ramones, entre muitos outros. Andou com Jim Morrison, com o Velvet Underground, desenvolveu conexões com o círculo social da Fábrica de Andy Warhol. E em certo momento do doc ele conta que mesmo fazendo acontecer muita coisa, muita coisa eles não sabiam, e além de assumirem naturalmente esse não saber, era como se eles se orgulhassem disso, e usavam esse não saber como um recurso.
Agora chove lá fora e não sei como terminar esse texto, estou querendo encontrar palavras para isso. Estou perdido e no fundo gosto disso: era o que eu tremia!
 

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