O Diabo é quem duvida!

Fechou o livro, orgulhoso por ter chegado ao fim. É verdade que pulou algumas páginas, talvez até alguns capítulos. Detalhes irrelevantes. Não ficou impressionado com a obra: um lixo. Li-xo! Realismo Mágico? Bobagem. Fantástico mesmo é tanta gente idolatrar porcarias desse tipo. Real é real, fantasia é fantasia, azul é azul e rosa é rosa. Ponto. Por que insistem em misturar tudo? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
A arte precisa de limites. Estava mais convicto do que nunca: mesclar um mundo mágico com fatos plausíveis – como se fosse algo natural – é uma ideia ridícula e perigosa. Se os adultos ficam confusos, imagine o que isso não faz com uma cabecinha ingênua. É preciso cuidar dos nossos jovens. Um inocente pode achar que o céu chorando flores amarelas por José Arcádio Buendía é algo tão real quanto a abertura do Mar Vermelho por Moisés. He-re-sia! Menino precisa é de disciplina. Esses livros com muitas páginas são iguais à filosofia: tomam o tempo que a criança poderia estar dedicando ao aprendizado de algum ofício útil.
Tantos Aurelianos juntos em um único livro, também o deixaram profundamente incomodado. Quanta falta de criatividade! Cem anos de aberração, isso sim. Uma verdadeira perda de tempo. Não se tira um só ensinamento válido desse monte de besteiras.
Lampejando lucidez, conseguiu ver a incomplexidade do mundo. A vida é simples. O problema são esses idiotas que se acham úteis complicando tudo. E tem mais: quem não distingue o real do imaginário é doido. Sim, doido mesmo. Ma-lu-co! Vamos dar nome às coisas. Porque chamar doido de psicótico é mimimi. E lugar de doido é no manicômio.
Nunca estivera tão certo de suas certezas. Subitamente, ouviu uma voz tonitruar do alto de uma goiabeira. Vinha de cima e, portanto, estava acima. De tudo e de todos. E pelo tom, a patente era ainda mais alta do que a mais alta patente conhecida. Pense num vozeirão. A ordem era clara; a missão, sagrada. É guerra santa. O escolhido deve acabar com badernas, mimimis e todo tipo de deformidade artística.
Não era tarefa fácil. Chegou a hesitar, mas teve o ânimo renovado pela previsão astrológica e pela cotação do dólar. Em sonho, foram-lhe reveladas as bases de uma nova doutrina: o Irrealismo Concreto. Com essa arma, seria invencível. E nem precisaria de porte. A ideia é simples e consiste em apenas duas fases. O primeiro passo é criar um mundo onde a inverossimilhança seja a regra; a crença ocupe o lugar da ciência; a ignorância vire motivo de orgulho e a comunicação precise de tradução. Depois é só esperar e se divertir chafurdando nas redes sociais. Uma vez acostumadas, as pessoas passarão a estranhar o bom senso, duvidar da educação, temer o conhecimento e, finalmente, prescindir do diálogo.
Moral da história: o diabo é quem duvida!

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