A Insustentável Leveza das Palavras

Qualquer vocábulo pode ter seu significado corrompido pelos anos de uso. Expressões que eram ofensivas para uma geração podem ser elogiosas para outra e vice-versa. Normal. Há pouco tempo, os diminutivos cofrinho e tanquinho não tinham nenhuma relação com partes do corpo humano. Laranja também costumava designar a fruta cítrica ou a cor secundária. E nada além disso.
Fatores culturais podem ampliar a força de uma palavra para além de seu significado, numa espécie de efeito placebo linguístico. Os anglicismos são um bom exemplo disso. Mesmo permitindo uma tradução literal, existem termos da língua inglesa cujo uso em português brasileiro é abominado. Provavelmente por questões mercadológicas. É por isso que se usa “coach” e não treinador, orientador: soa bem, dá mais credibilidade e deve pagar melhor. Fique atento. Se for falar para um público iniciado, prefira sempre “approach” ao invés de abordagem e “budget” no lugar de orçamento. Caso contrário, podem lhe chamar de “loser”.
Aprendemos na escola que gato é gato e lebre é lebre. Mas sempre chega um espertalhão querendo vender felis silvestris catus por lepus europaeus. Mudam-se os signos para mudar a essência. É aí que o bicho pega. Não é à toa que George Orwell inventou um governo que controlava a linguagem para controlar o pensamento. Ainda bem que a vida não imita a arte. Alguém poderia tentar, por exemplo, trocar o termo “agrotóxico” – que gera um alerta imediato em nossas mentes – por algo mais suave como “produto fitossanitário”, que faz muito menos mal. Não duvide.
Atualmente, o Brasil está na vanguarda do experimentalismo semântico. Um caso que resultou em sucesso eleitoral é a recente transformação do substantivo “ideologia”. Definida como “ciência que trata da formação das ideias”, a palavra – pelo menos para grande parte dos brasileiros – teve sua abrangência reduzida. O termo passou a ser usado, de forma sistemática, para designar apenas as ideias consideradas de esquerda. A estratégia colou e decolou com a ajuda borbulhante das redes sociais. Simples e fácil de entender: ideologia tem lado; é coisa ruim e não se aplica à direita. O negócio evoluiu de forma rápida e indiscriminada. Hoje, é suficiente não comungar com o ideário conservador para ser tachado de comunista ou “esquerdopata”. Basta defender princípios universais como os direitos humanos.
O país tem vocação vanguardista. É um fato. A última descoberta tem potencial para dar um nó na cabeça dos teóricos. Estudos oficiais, ainda não completamente esclarecidos, concluíram que o nazismo se tratava de um movimento de extrema esquerda: não se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães por acaso. Óbvio e ululante. Estava na cara o tempo todo. A comunidade científica internacional passou batida. Amadores. Chupa esse 7 x 1!
A palavra tem poder, dizem os religiosos. É verdade. E entre o céu da boca e a terra prometida, há muito mais do que vã verborreia. Já dizia a canção dos Paralamas: “Assaltaram a gramática, assassinaram a lógica”. Vai que um dia resolvem reescrever a história? Valha-me, meu Santo Aurélio.

4 Comments

  1. Perfeito Fernando. As palavras têm o poder de “(re)criar” o mundo, a realidade. Não é a toa que um dos Evangelhos, o mais racional deles, começa com a advertência:”E no início era o verbo”… E Lao Tse, quando perguntado o que faria se tivesse poder, apenas desejou: “restituíria às palavras seus sentidos originais”.

  2. Sensacional, Veio!! Muito bem observado, como sempre!!! Acrescente-se, aí, “feminismo”, que também passou a ser coisa de “esquerdopata”, assim como o “humanismo” …

  3. Grande Fernando seus textos são sempre precisos, inteligentes, com as pitadas de humor e sarcasmo na medida certa.
    Me impressiona também como os “especialistas e pensadores” de plantão são criativos, senão vejamos: a mulher se empodera = ter direitos, a reforma da previdência se desidrata = altera, feminícidio = crime de ódio, homicídio , player = participante de um negócio. Enquanto se perde tempo com essas bobagens os verdadeiros problemas da nossa sociedade vão se acumulando.
    Abraço.
    Flávio Tapete

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