Um Norte Na Vida

Fui para Santiago de Compostela quando morei na Espanha no fim dos anos 80. Fui de carro com a minha irmã, meu cunhado na época e meus sobrinhos. Eu estava fazendo uma pós lá em Madrid e morava com eles que estavam fazendo doutorado. Fizemos uma viagem fantástica para o norte da Espanha, passando por Burgos, por regiões como Astúrias, Cantabria e Galícia. Uma outra galáxia, uma outra Espanha. Quando pensamos em Espanha vem logo à mente a região mais famosa, ao sul – Andaluzia, com Sevilla, o flamenco & cia. Mas como diz meu amigo Pablo Capistrano: “a Espanha não é um país. È um amontoado de regiões com identidades étnicas e lingüísticas particulares que torcem por times de futebol diferentes e que tem um mesmo rei”.
Fui para Santiago para sentir as coisas que dizem que sentimos quando chegamos ali: a tal da magia da cidade. Para mim foi fácil a peregrinação em busca do algo mais: quando chegamos, chovia. E isso além de confirmar a famosa chuva em Santiago, deixava a cidade de um jeito que não consigo descrever. Além disso, encontramos na rua um ser que parecia iluminado e tocava uma música medieval em uma flauta. A Catedral de Santiago é a Catedral de Santiago, e quando chegamos lá havia ainda mais uns homens de preto na escadaria. Então tudo conspirava a meu favor nesse filme real: cada detalhe especial que ia aparecendo, ao mesmo tempo em que parece ter sido cuidadosamente colocado, simplesmente faz parte da natureza das coisas dali. Uma respiração arquitetônica que independia de eu ser arquiteto, uma misticidade que independia de Paulo Coelho (até porque eu estava mais para Raul Seixas, que por sinal morreu nessa minha época espanhola). Faço minhas, mais uma vez, as palavras de Don Pablo: “o lance é estar lá”.
No outro dia, minha irmã e a intrépida trupe seguiram viagem para Portugal e eu tive que voltar de trem para Madrid, por causa das aulas (eu não podia mais faltar). Depois de uma viagem noturna e longa, cheguei a Madrid pela manhã numa solidão quente e seca, aumentada por um lanche comum no McDonald’s antes da faculdade, e aliviada por um tocador no metrô que cantava um belo consolo: Across the Universe, dos quatro cavaleiros de Liverpool. Entreguei o resto de moedas que tinha para o meu salvador e segui em frente.
 

One Comment

  1. Meu amigo, como sempre eu viajo nas suas memórias tão bacanas! E fico até nostálgica com vc. Sobre Santiago de Compostela, deve ser mesmo mágico. Quero ir um dia! ❤️

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