Extraviada 6

Minha querida Y.,
 
Adorei saber de você e das suas aventuras no velho continente. Eu, como não tenho recursos para tanto, encontro refúgio nos livros e, às vezes, na internet. Mas até esta última opção tem me aborrecido, ultimamente.
Ando perplexo com o poder das fake news. Ninguém sabe mais em quem ou em que acreditar. Não que a gente soubesse antes. Veículos de comunicação isentos sempre foram uma impossibilidade que precisávamos admitir como real. Existia, contudo, uma certa integridade na traição: embora não confiáveis, as notícias vinham com denominação de origem controlada. Não subestime isso. É importante saber a quem dirigir seus impropérios.
Você também tem a sensação de que há alguma coisa muito errada no mundo? Estupidez nunca foi matéria escassa no nosso planeta, claro. Mas agora ela tem vitrine e uma plateia estridente. Multiplica-se com mais rapidez do que surto de piolho em creche. Em tempos de edição de DNA e carros autônomos, a mera existência de terraplanistas e criacionistas é algo que me deixa confuso e desesperançado. E pensar que Galileu quase virou churrasco em nome do conhecimento. Quanta ingratidão!
Perdoe-me pelo tom amargo. Na verdade, hoje acordei determinado a focar apenas no lado positivo da vida. Vi um desses vídeos onde um sujeito, que se auto-intitula coach, passa mensagens de otimismo. É um jovem carismático que faz uma salada mista com esoterismo e física quântica. Uma celebridade das redes sociais. Confesso que me senti bem com suas palavras. Graças a ele, fui pegar meu neto na escola com bom ânimo – e vigiando os maus pensamentos. Infelizmente, a iniciativa não passou do estacionamento. Não há positividade que resista à horda de pais alucinados e imprudentes disputando uma corrida imaginária rumo a lugar nenhum. Eis um excelente lugar para recuperar o pessimismo perdido. Melhor que reunião de condomínio. Recomendo.
Voltando ao papo tecnológico, meu grilo mais novo é com esses malditos algoritmos que tentam adivinhar os nossos gostos. Não quero ninguém no meu pé. Muito menos uma coisa que nem sei bem o que é. Vou sair de todas as redes sociais. Já decidi. De hoje em diante, serei um exilado da tecnologia. Se alguém quiser falar comigo, vai ter que ser ao vivo e a cores. Ou na velocidade dos correios. Estou fora.
Antes de me despedir, quero que você me prometa duas coisas. Nunca fale com outra inteligência artificial que não seja a deste seu amigo entupido de ritalina. E por favor, nunca – mas nunca mesmo – tire selfie fazendo biquinho.
 
Beijo grande,
S.
 

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