O Mal Alheio

Logo no comecinho de “O Grande Gatsby” – clássico de Scott Ftzgerald – o narrador relembra um conselho do pai: “Sempre que você tiver vontade de criticar alguém, lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou”. É uma dessas frases que li e ficaram impressas para sempre na memória. O protagonista seguiu a sugestão paterna e notou uma consequência interessante: ao perceber que estavam diante de alguém que não as julgava, as pessoas se sentiam livres para se abrir e até mesmo expor seus segredos.
Ouvir é difícil. Ouvir sem julgar é raro. Isso pressupõe, no mínimo, alguma capacidade de empatia, que é a habilidade de se colocar no lugar do outro. Tem a ver com tolerância. Na maioria das vezes, vamos no sentido oposto. Quando entramos em terrenos movediços como política e religião, aí a comunicação passa a ser praticamente impossível. Junte os dois e a coisa fica feia. Nessas áreas, a certeza de uns é uma ameaça para outros, como diz Mr. Obama no seu “A Origem dos Meus Sonhos”.
Há uns anos, tive uma experiência transformadora em termos de tolerância. No prédio em que vivi, tinha uma moradora que me tirava do sério. Era uma senhora que transpirava mau humor e raiva. Sempre que a encontrava no elevador e a cumprimentava, ela virava a cara. A carranca, melhor dizendo. Minha reação era a mais natural possível: faltava pouco para mandá-la àquele lugar. Era um desgosto cruzar com a criatura.
Nessa mesma época, um livro chegou até mim por acaso. Nele, um psiquiatra ocidental (Dr. Cutler) segue o Dalai Lama, realizando uma série de entrevistas. Trata-se de “A Arte da Felicidade”. Num trecho do livro, aborda-se precisamente a dificuldade em lidar com pessoas que nos irritam. O budista sugere algo que, naquele momento, me pareceu descabido. Segundo ele, um ser humano que age de maneira detestável, agredindo a tudo e a todos, está vivendo num inferno. São pessoas que precisam de nossa compaixão. Ao invés de responder na mesma moeda, ele sugere que tentemos entender suas aflições. E rezar por ele ou ela. Sério, Dalai?
Um belo dia, peguei carona com uma prima fisioterapeuta. Ao chegar na portaria do prédio, ela viu a tal senhora. Era sua paciente. Antes que eu pudesse dizer o quanto aquela moradora me causava desgosto, fiquei sabendo que a mulher tinha perdido a família inteira em um acidente de carro: marido, filhos, mãe. Ficara sozinha no mundo. E eu aqui – na minha vidinha que agora parecia perfeita – cobrando educação e bom humor. Fui nocauteado pela filosofia oriental. A partir desse dia, ela não só tinha meu consentimento para ser intragável, como contava com minha simpatia não correspondida.
Se a empatia diminui distâncias, a compaixão – que é dividir a dor alheia – muda nossa forma de enxergar o mundo. Ação e reação: é assim que somos programados. Bateu, levou. Inverter a relação de causa e efeito é difícil, mas libertador. Acredito que isso também tem a ver com o preceito cristão de oferecer a outra face. Não sou religioso, mas acho que tem muita gente entendendo tudo errado…

One Comment

  1. Muitíssimo pertinente, o tema. De fato, uma das grandes dificuldades do ser humano é a de “pensar no próximo”. Isso se reflete muitíssimo em processos eleitorais, em que raramente se pensa o que a eleição de candidato x ou y representa para A COMUNIDADE, e não para si mesmo ou o grupo de “sua bolha”. Para ilustrar: Nesse momento, vemos um monte de funcionários do ministério do trabalho (que está para ser extinto) que estão arrependidos por terem votado em alguém que os colocará no olho da rua. Provavelmente, não haveria arrependimento algum se os prejudicados fossem outros, mesmo que do “prédio vizinho” (a propósito, não tenho notícia de que os funcionários dos outros ministérios tenham se juntado, no protesto, aos funcionários do MT) . Tampouco importaria o anunciado fim de comunidades indígenas e quilombolas (provavelmente envolvendo extermínio), ou mesmo os direitos de tantos trabalhadores que estão ameaçados pela extinção do ministério. O que importa, o que tira o sono, o que decepciona, o que revolta, é que EU me prejudiquei …. A humanidade é um projeto que não deu(s) certo….

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