As alegorias inquietantes de Coetzee

Inquietante. Essa é a minha definição para a obra do sul-africano J.M. Coetzee, ganhador do Nobel de Literatura de 2003 e que só depois do prêmio começou a receber atenção das editoras e  do público leitor no Brasil. Outros leitores e os críticos, mais bem preparados, terão definições melhores. Para mim, tudo que sobra da leitura dos romances de Coetzee é a incômoda sensação de que fui enredado pela narrativa clara e estilo leve do autor, cujo o único objetivo era tornar evidente o quanto são frágeis às certezas nos quais nos apoiamos.

Tal sentimento em relação aos livros de Coetzee não é novo. Até onde lembro, começou a ser esboçado com as dificuldades de ler O cio da terra (título com que a editora Best-Seller publicou, em 1983, Vida e Época de Michael K), acentuou-se com o romance Juventude e se definiu quando li  À espera dos bárbaros(depois do Nobel, a Companhia das Letras lançou e mantem a edição de todos os livros de Coetzee). No seu estilo “curto e grosso” para dar entrevistas, Coetzee é insondável quanto as suas relações com o público e não oferece qualquer ajuda às tentativas de decifrar seus pensamentos. Em uma dessas entrevistas à Folha de São Paulo, firmou mesmo certo distanciamento quanto a essas questões. Para ele, “os leitores têm o direito de ler ficção de acordo com seu próprio desejo, sem a supervisão ou a direção do autor falando por fora do livro”. E considera que a opinião dos autores,  “na maioria dos temas, não têm mais valor ou importância que as das outras pessoas. E trabalhos de ficção não sobrevivem tanto a ponto de passarem a existir apenas para permitir que os autores expressem as suas próprias opiniões sobre o mundo.”

Nesta última assertiva, pelo menos, Coetzee está errado. Ou parcialmente errado. Os bons romances perduram exatamente porque oferecem uma visão autoral do mundo, mais autêntica e compreensível às pessoas comuns que àquela impessoal e institucionalizada, construída para a História (o véu com que os vencedores cobrem a realidade do passado).

À espera dos bárbaros foi escrito em 1980 e permanece inquietantemente atual. O império fictício e os personagens descritos no texto não têm especificidades históricas, o que confere ao romance um sentido universal. Foi possível lê-lo, à época da sua criação, como uma alegoria do apartheid sul-africano e, hoje, 38 anos depois, o que nos vem a mente é certa analogia com os conflitos de poder pelos quais o mundo passa. O império pode ser os EUA (com os ingleses) e, os bárbaros, os povos do Oriente Médio e da Ásia.  No livro, a lógica da guerra e a defesa dos assentamentos de colonos pela Terceira Divisão da Guarda Civil pode ser a política do governo israelense para com os palestinos (esses “bárbaros” do século XX que ainda teimam em resistir à geopolítica pós-moderna do século XIX), confinados em diminutas faixas de terras limítrofes, mal alimentados e mal armados para defenderem à vida e suas casas.

Mas, para além das analogias históricas (ou atuais) sobre os homens e o poder, o romance de Coetzee nos mostra algo sobre a dor. Ela sim, é a verdadeira protagonista de À espera dos bárbaros. Com o velho magistrado/narrador aprendemos que a dor existe, que está lá fora à espreita, que no momento mesmo que a ignoramos na segurança aparente das nossas conquistas, ela quebra a certeza de milhares de outros… Na definição do coronel Joll – o mais sinistro e um dos dois únicos personagens nomeados no romance – “a dor é real, todo o resto está sujeito à dúvida”. Trata-se da lógica de um torturador. Mas é impossível negar o quanto diante da dor, como presença ou ameaça, tão facilmente se rompe o casulo de bem-estar e conforto que construímos ao redor de nós.

Em uma última condescendência às nossas esperanças, Coetzee também nos mostra que a dor transforma, redime, renova. Mas, nem por isso, inquieta menos.

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