O Romance Perfeito de Tolstói

Após uma pintura geral na casa, incluindo o quarto no qual guardo os livros e gosto (por mera presunção) chamar de “biblioteca”, estou esperando o tempo propicio, a disposição favorável e o estado de espírito iluminado para reorganizar as prateleiras. Tudo isso é necessário porque, nestas ocasiões, o dever e as cobranças de dona Ceiça me obrigam a selecionar e separar para doações aqueles volumes que nunca serão relidos, os que foram comprados por impulso e nunca abertos, os que estarão melhores nas mãos de estudantes, os que perderam a graça e sequer servem para consultas. O desprendimento em relação aos livros custa-me mais que os preços de capa.
Exemplo dessa dificuldade são as três edições de Anna Kariênina, de Liev Tolstói, que tenho há anos e não consigo me desfazer de nenhuma delas. Uma faz parte daquela coleção em capa dura vermelha, que a Abril editou nos anos 1980 e que foi um dos primeiros livros que comprei com meu próprio dinheiro. Outra, foi presente de um amigo. A terceira é uma edição de luxo da Cosacnaify, guardada em caixa e capa dura, traduzida diretamente do russo por Rubens Figueiredo, com notas explicativas, árvore genealógica e lista dos personagens, lançada em 2005 e, desde então, considerada a maior e mais completa versão para o português do grande romance do escritor russo.
Dostoievski escreveu, em seu Diário de um Escritor, que considerava Anna Kariênina “uma obra de arte perfeita”. Com efeito, é um romance que sem a mesma grandiosidade histórica nem a complexa teia de personagens, supera em dramaticidade o épico Guerra e Paz e fixa, para sempre, o gênio literário de Tólstoi. Pena que desde que veio à público, há 130 anos, Anna Kariênina tenha sido frequentemente mal interpretado por tantos leitores como uma angustiante – e se assim fosse, banal – história sobre a condenação do adultério.
As circunstâncias em que foi escrito e a famosa abertura – “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira” – fizeram o romance parecer uma história sobre o desespero e a infelicidade familiar. Explica-se: o romance é ambientando na Rússia do czar Pedro, O Grande, época que Tolstoi via como de dissolução dos padrões morais. A crise que leva a Kariênina, até então dona de casa e mãe de família exemplar, a abandonar o lar para seguir uma paixão sensual por um oficial aventureiro e libertino (Aleksiei Vrónski) é, em certa medida, a crise do próprio Tólstoi. Os anos em que ele tenta escrever e concluir o romance (1873-1875) são também os anos da crise de consciência que o afasta das concepções hedonistas da arte, que o levam a se converter à fé ortodoxa e, mais tarde, aos questionamentos morais que o afastam da Igreja e o fazem formular uma religiosidade pessoal à luz da imitação de Cristo. E, no entanto, como lembra o crítico João Gaspar Simões (estudo crítico-biográfico na Obra Completa de Tolstoi, ed. Nova Aguilar), “Ana Kariênina não é propriamente um libelo seja contra o que for”.
A chave para ler Anna Kariênina e entender o Tolstoi da fase pré-conversão, na qual o romance foi escrito, está na epígrafe. Algumas edições portuguesas não a reproduzem. “De mim virá a vingança, e também a recompensa”. Trata-se de um versículo do Velho Testamento (Deuteronômio 32:35), parte das profecias e admoestações contidas na mensagem final de Moises aos hebreus, pouco antes dele morrer. Composto mediante inspiração divina, essa velha oração nos fala dos favores de Deus à humanidade, da teimosia com que os homens ignoram essas benções, do conseqüente castigo e também da certeza de benevolência do Senhor.
Sem qualquer sinal da náusea moral, do cansaço pessoal e do desencanto artístico que acometiam o autor em sua vida pessoal, Anna Kariênina está repleto da promessa de vida que é possível ler, também, no cântico de Moisés. É em busca dessa promessa que a personagem principal abandona o casamento legal, no entanto estéril. É por a ter perdido que se joga sob o trem, arcando sozinha com esse infortúnio. Tolstoi, que procuraria a solução na fé, se auto-retrata em Liévin Konstantin. Também este personagem, central no romance, sofre provações, afoga-se em dúvidas, mas ao contrário de Anna, agarra-se à vida como a uma tábua para a salvação. A conversão de Liévin antecipa a própria conversão do autor. E o leitor, ao final, fecha o romance com a mesma impressão de que a vida – por mais que façamos por onde destruí-la – há de persistir e se multiplicar como uma benção divina.

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