Tempo Rei

O indicador nervoso faz um movimento, deslizando os contatos na tela do celular. É uma ladeira sem fim, em ordem alfabética. Deu-se conta de quantos nomes queridos se foram para sempre para lugar nenhum. Jamais os apagará. Segue agenda abaixo, observando os que se perderam no caminho e os que reapareceram do nada. Aqueles que sempre estiveram próximos são mais difíceis de enxergar. Chega uma mensagem no aplicativo que une separando ou separa unindo. Ele interrompe o que está fazendo e se apressa em ler o conteúdo. É só mais uma piada de mau gosto. Volta aos contatos, passando-os maquinalmente. Percebe que a busca é inútil: esqueceu o que estava procurando. Efeito colateral da tecnologia.
Tem consciência de sua dificuldade em lidar com o caráter imprevisível da vida. Nunca teve problemas em aceitar a própria finitude, mas ainda se assombra com a aleatoriedade dos caminhos sem volta e sem sentido. Intui, em vão, que esse pensamento tem relação com o lapso de memória. Isso tampouco ajuda.
Vai para o banheiro se barbear com a sensação de que alguma coisa importante deixou de ser feita. Como quem adia uma obrigação, passa um bom tempo mapeando o relevo do rosto no espelho. Subitamente, lembra o que buscava: precisa passar uma mensagem de pêsames para o irmão daquele que se tornou mais um contato vazio no celular.
Concorda com o homem que o encara do outro lado da parede: é uma grande sacanagem pessoas boas partirem muito cedo e outras dispensáveis prolongarem a estadia no planeta. O reflexo pergunta se ele próprio não seria perfeitamente dispensável. Faz outra varredura na imagem, catalogando os pelos perdidos em áreas essenciais e os que nasceram em lugares ridículos: o tempo tem um senso de humor perverso. Pensa nas horas de existência desperdiçadas para ficar de cara lisa. Joga a lâmina no lixo. Foda-se a barba.

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O tempo é como um extrato bancário eternamente desatualizado: você nunca sabe o que ainda tem. Para mim, um dos livros que falam melhor de nossa relação com o tempo é “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati. Li-o ainda bem jovem, num momento em que estava decidindo qual rumo seguir nos estudos e na vida. O timing foi perfeito para conhecer a obra. E teve um grande impacto em mim.
O livro trata da transferência do tenente Giovanni Drogo para servir em um forte ermo da fronteira. O jovem oficial tem grandes esperanças de alcançar a glória e mostrar o seu valor em batalha. Para isso, espera ansioso pelo ataque do inimigo tártaro. Acontece que os anos passam e o adversário nunca dá as caras. O horizonte do deserto, contudo, é uma visão que tem o poder de renovar, a cada dia, as expectativas e os desejos mais profundos do protagonista.
Indiferente aos planos de Drogo, o tempo passa e leva sua juventude e seu vigor. Ironicamente, o inimigo resolve aparecer no momento em que o oficial está deixando o forte.
O tempo é rei e não está nem aí para nossos anseios plebeus. Já dizia Gil: “Não se iludam / Não me iludo / Tudo agora mesmo / Pode estar por um segundo”.

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