Desejo de Ser Inútil

O que sei das coisas inúteis
A estrutura clássica do haiku japonês (haikai ou haicai, se preferirem) – poema de três versos, de 5-7-5 sílabas e/ou fonemas – apesar de grande responsável pela sua identidade e popularização, tanto no país de origem e em outros nos quais veio a ser conhecido e praticado, não é aquela que consideramos “a regra de ouro” dessa forma de texto poético.

Tampouco seriam, ainda que valorizem a adaptação/ocidentalização do haiku, as conceituações quanto a rima – uma entre o primeiro e o terceiro verso; outra, interna ao segundo, verso – como definidas e praticadas por vários poetas brasileiros, com destaque para Guilherme de Almeida.
 
Nossa concepção é que, ao formato breve e a possível independência das rimas e métricas, deve aliar-se, é mesmo essencial à caracterização do haiku, a composição do “momento poético vivido” – em oposição a poesia meramente escrita através do jogo de palavras – com a “percepção/internalização do vazio” presente em tudo, inclusive na própria experiência poética – conceito responsável pela aproximação do haiku ao zen budismo.

Octávio Paz considerava o haiku “experiência poética recriada” (O Livro dos Haikais, ed. Aliança Cultural Brasil/Japão – pag. 20 – 1987). O significado dessa assertiva, como vemos na poesia de Bashô, Buson e Issa – três grandes mestres do haiku japonês – é a ausência ou o mínimo possível de “intelectualização, pensamentos e ideias elaboradas” no texto poético, compensada pela presença do “sentimento, intuição e simplicidade” na descrição da realidade própria, da essência pura das coisas.
Quanto ao conceito do “vazio”, ele se traduz na natureza incompleta do haiku. “Um verdadeiro haiku nunca diz tudo, não pode dizer tudo”, esclarece Joaquim M. Palma, na introdução à obra completa de Matsuo Bashô (O Eremita Viajante, ed Assírio & Alvim – pag. 36, 2016). É essa incompletude que abre o espaço necessário à participação do leitor na experiência poética recriada pelo haiku, através da possibilidade de atribuir significados, acrescentar elementos, associar visões, imaginar situações, elaborar desdobramentos ao texto… De resto, essa perspectiva deveria ser característica presente em toda boa poesia.
Essa coleção de haikus que assino – Desejo de ser inútil – não tem a pretensão de chegar a tanto nem alcançar tal estatus de “boa poesia”. São versos que colecionei, no entusiasmo e encantamento de alguns raros momentos, tão raros que considerei proveitoso guardar registros deles. E pelo incentivo de amigos – cito os escritores e amigos Carlos de Souza e Adriano de Souza; o editor José Correia e Alexis Peixoto, meu filho – atrevo- me à publicação. Se mal não fizerem, já estarão de bom tamanho e atenderão ao desejo do título.
 
“nada cogito
completo está o poema
inescrito”
*Do posfácio do autor
 

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