Palavreando

Palavra: unidade mínima com som e significado que, sozinha, pode constituir um enunciado. Está lá no dicionário e ninguém duvida. Acontece que, às vezes, cismo com um vocábulo. Não sei se em virtude de alguma característica obsessiva ou outro distúrbio qualquer, de vez em quando, o som de uma palavra parece se dissociar de seu significado. É um tipo de lapso, um distanciamento momentâneo que me faz estranhar a expressão dita milhões de vezes. Tem um verso numa canção de Chico Buarque que fala de estranhamento. Diz assim: “Mordo a fruta, outro é o sumo / Ando pela mesma casa com outro prumo”. Mais ou menos isso.
Algumas palavras sempre vão soar esquisitas para mim. “Usura”, por exemplo, é um termo que falha na capacidade de dar uma sonoridade adequada àquilo que pretende definir. Acho fraco, sem apelo, insuficiente para designar uma grave falha humana.
Outro dia, um amigo usou a expressão “peroração”. Não a conhecia e, de cara, já não gostei. Fui procurar no dicionário e descobri que pode ser a parte final de um discurso ou um discurso breve, afetado. O outro Buarque, o Aurélio, que me desculpe. Mas isso para mim é nome de depilação: meu cérebro se recusa a associar forma e conteúdo. Decidi que nunca vou usá-lo.
Por outro lado, alguns verbetes combinam som e sentido com uma precisão musical. É o caso de um substantivo que conheci primeiro em italiano: “scarabocchio”. Em português, escreve-se escarabocho e significa garatuja. Esse é daqueles vocábulos que, pelo menos aos meus ouvidos, já evocam a imagem de uma criança rabiscando as paredes brancas de sua casa. O som já traz em si uma melodia de traço aleatório, errante. Infelizmente, está condenado ao desuso como tantas outras palavras.
O verbo “fiodentalizar”, eu usava só de brincadeira. Nem sabia que existia. Sempre achei injusto que os palitos tivessem uma palavra para designar seu uso – mesmo desaconselhado pelas regras de etiqueta e pelos dentistas – e o fio dental ficasse esquecido. Mas eis que encontro o dito cujo no dicionário Michaelis On-line. É preciso, direto, pragmático e nunca vai ser popular. Agora mesmo, enquanto digito, o corretor ortográfico do notebook sublinha o verbete de vermelho, se negando a reconhecê-lo.
Tem também os palavrões. A expressão “palavrão”, inclusive, no sentido de palavra grande, já entra em contradição com o termo chulo para ânus, um dos menores e mais utilizados palavrões do português. Falando nisso, em relação a xingamento, a gente perde feio para os italianos. Pense numa língua boa para xingar. O repertório é vasto e criativo. Existe até um termo específico para ofender os familiares mortos do outro: “mortacci tua”. Esse insulto, típico de Roma, também pode ser usado num contexto de brincadeira. Isso me faz lembrar do vocábulo genuinamente potiguar “galado”, uma palavra com mais usos que o Bombril e com uma sonoridade que a tudo se adequa, dependendo da inflexão.
Agora chega. Antes que chamem esse texto de peroração, vou ali molhar a palavra.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.