Perdidos no Espaço

Em 1966, o antropólogo americano Edward T. Hall, no seu livro “A Dimensão Oculta”, desenvolveu o conceito de “Comunicação Proxêmica”. O termo se refere a um tipo de linguagem espacial condicionado por padrões culturais. Seria algo como uma área de segurança que mantemos em nossas relações sociais.
Hall parte da observação do comportamento dos animais para definir como nós demarcamos nossa zona de conforto. A noção de espaço dos animais, na interação com o ambiente, é como um anel imaginário: se um intruso se aproxima demais, ultrapassando as fronteiras consideradas seguras, resultará em fuga ou ataque. Segundo o antropólogo, isso explicaria por que em algumas sociedades – como a nossa – é normal colocar a mão no ombro ou dar um tapinha nas costas de alguém que acabamos de conhecer; esse mesmo gesto, em outras culturas, pode ser algo bastante invasivo. Faz sentido.
Lembrei disso depois de ler um artigo de jornal, assinado por David Coimbra, que circulou nas redes sociais durante a copa do mundo. O título da matéria é “O Brasileiro Perfeito Idiota” (https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/david-coimbra/noticia/2018/07/o-brasileiro-perfeito-idiota-cjj968lvw0n1n01qoc2eqild4.html). O jornalista narra o show de educação dado por um grupo de jovens brasileiros em um restaurante de Kazan, na Rússia. Para seu desgosto – e dos demais fregueses – os compatriotas sacaram um som portátil de uma bolsa, e deram play no seu sertanejo preferido. Sem o menor constrangimento. Isso, por si só, já seria incivilizado. Mas foi pior: o restaurante já tinha música ambiente. Tentaram desestimular a atitude dos turistas indesejados aumentando o som do local. A brava gente não se intimidou e aumentou o volume ainda mais. Não parou por aí. Outros viajantes canarinhos, de outras mesas, gostaram e se juntaram ao espetáculo. Cantaram alto e dançaram em cima das cadeiras. Um deles, inclusive, chegou a tirar a camisa.
Pode isso, Arnaldo? Claro que não. Mas num país onde as regras nunca foram muito claras, não causa espanto. Quem já foi privado de sono pela necessidade de algum sujeito ostentar o gosto musical em seu paredão, durante a madrugada, sabe como é o brazilian way. E costume de casa vai à praça.
Pensando no conceito de comunicação proxêmica, fico me perguntando se esses brasileiros simplesmente não têm nenhuma noção do seu espaço. A ausência dessa percepção, pelo menos explicaria o comportamento bizarro: se falta o sentido de zona de segurança para eles próprios, como entender que se está invadindo o espaço alheio? Infelizmente, desconfio que seja uma explicação muito romântica. E mesmo que servisse de álibi, a teoria de Hall, posteriormente, foi bastante criticada e até acusada de carecer de fundamentação científica mais sólida. Pior para nós.
O fato é que não existe teoria ou desculpa para justificar esse tipo de atitude. Ponto. Sobretudo se pensarmos que quem pode ir a uma copa na Rússia está no topo da pirâmide social tupiniquim. Esse tipo de comportamento, todavia, não é mais um privilégio da elite que usa vagas de deficientes e idosos como propriedade privada. A inclusão, pelo menos nessa área, é regra. Está no DNA verde e amarelo. Apenas espera-se mais daqueles que tiveram as melhores oportunidades.
Faço coro com Coimbra em seu último questionamento: o que se pode esperar de um país em que boa parte da elite carece de empatia e ignora as normas mais elementares de civilização? Fica a pergunta. Tá russo, meu irmão…

One Comment

  1. São os mesmos que foram às ruas dar apoio ao golpe parlamentar que depôs uma presidente eleita nas urnas. Depois desse feito essa gente se encheu de empáfia e saiu definitivamente do armário. Afinal, quem tira presidente da cadeira deve poder tudo né!!! E vem coisa pior por aí.

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