Manual Zen #11

Manual Zen Sobre o Conserto de Motocicletas e Outras Artes

“Ser tolerante é tolerar tudo?”
André Comte-Sponville recorre a pergunta na abertura do capítulo XIII do Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (ed. Martins Fontes) para nos mostrar o quanto à tolerância, sendo das mais necessárias e atuais das virtudes, está entre àquelas de mais difícil aplicação.
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Quem tolera tudo permitirá os piores crimes (por omissão) e anulando todas as outras virtudes, a começar pela justiça e finalizar pela própria tolerância, vítima da ação livre e desimpedida dos intolerantes. A tolerância, para ser virtude, não pode dispensar a ação moral e política a que os virtuosos, para merecerem o nome, estão obrigados a realizar.
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O problema da tolerância está sempre relacionado às questões de opinião. Comte-Sponville afirma que quando há conhecimento suficiente para estabelecer a verdade, sem sombras de incertezas morais, políticas ou científicas, “não há objeto para a tolerância”. Não dá para ser tolerante com o matemático que insiste em afirmar que dois mais dois cinco ou com o astronomo que teorize que o sol gira em torno da terra. O conhecimento a única chave disponível para abrirmos e/ou fecharmos a porta à tolerância.
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A tolerância requer limites, mas fixá-los será sempre complicado. Requer ação pessoal, mas também que pensemos a respeito de como agir em defesa da tolerância. Comte-Sponville faz uma boa apresentação de todos os dilemas que se nos apresentam nesta tarefa. Ressalto, aqui, apenas o paradoxo – de nos tornarmos intolerantes na defesa da tolerância – e o necessário para solucioná-lo: ter presentes as outras virtudes (como a já citada justiça, mas também a humildade, a boa-fé, a misericórdia etc) e não nos entregarmos ao egoísmo de nossas ações, pensamentos e crenças.
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A questão do egoísmo é central na definição e na prática da tolerância. Para ser virtude, a tolerância requer que suportemos aquilo que não é em favor do nosso próprio interesse, do nosso prazer ou dos nossos valores. Exige a aceitação e o respeito à diversidade na vida, à multiplicidade dos modos de ser, pensar e crê. Reflexões sobre a tolerância não nos causam males ou nos diminuem diante dos outros, mesmo dos intolerantes. Ainda Comte-Sponville: “a moral não é nem um mercado nem um espelho” e “onde já se viu uma virtude depender do ponto de vista dos que não a tem?”. A tolerância não se guia pelos princípios dos intolerantes, mas também não nega uma parcela de si àqueles que não a respeitam. Haverá sempre o direito de ser expressar, uma vez que o diálogo é a base para se estabelecer o conhecimento e se chegar à verdade.
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Diálogo e tolerância são irmãos. Quando transformados em práticas diárias e indissociáveis – dizia Thomas Merton, monge cristão morto em 1968 – a tolerância e o diálogo permitem que o homem alcance um patamar superior à simples compreensão, um patamar que se abre para a comunhão do eu com o outro.

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