Extraviada 4

Querida N.,
Você sempre foi minha referência, meu porto seguro. Nunca vou esquecer tudo o que tem feito por este amigo indesculpável. Se o seu cartão de crédito já me salvou algumas vezes, a sua amizade fez muito mais. Pode acreditar.
Assim como você, também ando à procura de algum sentido para a existência. A curiosidade científica e a consciência da própria finitude não me dão outra escolha. Andei por caminhos inimagináveis. Vivi coisas incríveis. Acho que nem você acreditaria. Tudo fica meio sem graça na sua ausência, devo dizer. Não tenho mais ninguém para compartilhar minhas descobertas. Mas sei que essa é uma jornada individual, uma busca só minha e de mais ninguém. Aprendi a conviver com a solidão por falta de alternativa. As horas dedicadas à meditação e ao onanismo foram de grande ajuda. Avante.
Preciso desabafar com você. Prepare-se para uma revelação perturbadora; algo que foi capaz de estremecer minha fleuma científica. Digo logo de uma vez para não vacilar: dei para ouvir o meu gato. Kafkiano, sim, mas a pura verdade. E posso lhe assegurar que a sensatez do animal é de causar inveja a qualquer monge tibetano.
Coisas estranhas acontecem comigo, você sabe. Fiquei especialmente abalado com essa. As poucas pessoas que ainda fazem parte de meu convívio até tentaram ajudar, mas não funcionou muito bem. Fique tranquila. De alguma forma, tudo já foi resolvido. Acompanhe o meu relato, abaixo.
Mesmo contra minhas convicções, um colega forçou-me a fazer um tratamento espírita. Frequentei algumas sessões onde uma mulher com a voz de Barry White falava em outras línguas. Fiquei aturdido. Foi o bichano quem me trouxe de volta à razão. Com lucidez invejável, dissertou longamente sobre parapsicologia, Jung e Mãe Dinah. Os argumentos eram sólidos. Fui convencido a abandonar a experiência. Digo-lhe que nunca houve animal de estimação mais sábio.
A vizinha, na melhor das intenções, também quis intervir. Sem o meu consentimento, levou o gatinho para uma espécie de exorcismo neopentecostal. Aos primeiros gritos, o bicho arranhou o pastor e fugiu. O incidente foi creditado na conta do tinhoso. Por pura vingança, antes de voltar para casa, o felino ainda converteu dois fiéis ao ateísmo.
Finalmente, resolvi procurar uma orientação, digamos, mais cartesiana. Isso tampouco foi solução. Meu psiquiatra suspeitou logo de esquizofrenia. Absurdo. Fiquei indignado com o diagnóstico e dispensei o sujeito. Em todo caso, continuei com o remédio controlado que ele prescreveu. Infelizmente, tive que suspender a medicação. O gato não se adaptou de jeito nenhum.
Tudo isso me fez descobrir que o problema não é comigo, mas com os outros. O inferno de sempre. Resolvi relaxar e aproveitar a companhia animal. Aceitei o insólito como dádiva: um presente dos deuses para mitigar minha solidão. Não por acaso, batizei o animalzinho de Zeus.
Aguardamos sua visita. Zeus tem a língua ferina, mas é muito sedutor. Vocês vão se adorar.
Um beijo carinhoso,
W.

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