Extraviada 3

Caríssimo W.,
Dizem que a arte imita a vida. Nem sempre. Estou convencida de que se trata de um axioma questionável. De tanto ser copiada, eventualmente, a vida se rebela. Resolve delirar só por birra. Toma rumos inacessíveis à sensibilidade humana. Nessas condições, uma representação artística torna-se inviável. Em sua última entrevista, nosso ídolo Chet Baker disse por que desistira de registrar suas memórias: era tudo tão absurdo que ninguém iria acreditar.
Essa introdução é só para lhe dizer que creio em cada palavra que você escreveu em sua carta. Nada mais me surpreende nesse mundo. A ficção mais alucinada sequer se aproxima da realidade atual. Definitivamente, Chet deveria ter acabado seu diário. Falando em ídolos da música e non sense, veja só que pesquisa curiosa eu descobri na internet: “Tubarões preferem jazz a outros gêneros musicais”. Segundo o estudo, os animais associariam o estilo de New Orleans ao som staccato emitido pelos peixes moribundos. Num primeiro momento, fiquei preocupada. Sei que você adora pescar ouvindo música. Depois lembrei que os tubarões são musicalmente mais evoluídos que seus amigos. Menos mal.
Acabo de ter um déjà-vu enquanto escrevo para você. Detesto essa sensação. Na minha infância, pensava que a vida estava se repetindo. Achava isso desagradável como um disco arranhado. Começava a correr ao redor da casa, numa tentativa de pegar o destino de surpresa com uma atitude imprevista. Essa deve ser a razão para gostar tanto de jazz: uma música nunca é tocada da mesma forma duas vezes. Viva a improvisação. Mas, pensando bem, eu não deveria me incomodar. Afinal, o que é um déjà-vuzinho à toa para quem se repetiu a vida inteira?
Não quero ser amarga, mas não estou no melhor momento da minha vida. Se hoje eu estivesse numa luta de boxe com o destino e conseguisse nocauteá-lo, ele ainda venceria por pontos. Eu sei, não está fácil para ninguém. Por isso que contratei um astrólogo particular. Não me recrimine. Meu coach já ganha muito bem para isso. Sim, tenho os dois, e daí? Pode chamar de autoajuda multidisciplinar, desespero ou que quiser. Não me importo.
A verdade é que estou tentando acreditar em alguma coisa. Os tempos pedem. Além do mais, esse cara é o astrólogo oficial das celebridades. E discrição não é o forte dele, o que considero um bônus. Tenho muitas fofocas para lhe contar. Soube detalhes das aventuras sexuais da sua atriz preferida que fariam Cleo Pires enrubescer. Mas isso é assunto para outra carta. Enfim, ainda não decidi se devo levar o oráculo a sério. Fique tranquilo. No mínimo, ele serve para me fazer companhia. Em troca de uma bela soma, é claro. Tudo tem o seu valor. Descobri, por exemplo, que tenho Vênus em Escorpião: mesmo que não signifique nada, não deixa de ser uma metáfora perfeita para mim. Admita.
Obrigado pela paciência em ouvir meus desabafos sem sentido. Ou pelo menos sem reclamar. É o meu jeito de dizer que sinto saudade. Escreva logo contando tudo.
Da sua sempre ansiosa,
N.

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