Histórias Soltas – Parte II – A Galinhagem Francesa e o Frango Italiano

Não sei se aqueles franceses eram realmente chatos, cheios de frescuras. Ou se isso foi implantado na minha cabeça pela máfia italiana. É fácil estereotipar e dizer que os italianos são mafiosos, os franceses são chatos e os brasileiros são malandros, por exemplo.
Talvez aquele casal de franceses fosse apenas um casal tímido. Mas quem tem fama deita na cama. Quem deitou na cama foi o frango. Mas isso eu conto depois.
O trem cruzava a frança e assim que os franceses desceram os dois italianos me perguntaram:
– Francese?
– No. Respondi. Brasiliano.
A cabine do trem entrou em festa! Agora éramos três: um brasileiro (eu) e dois italianos (tio e sobrinho). O tio e o sobrinho começaram a xingar os franceses e comemorar o fato de eu ser brasileiro.
Agora tenho que fazer uma espécie de “parágrafo-parênteses”. Vale lembrar que a minha formação francesa quase por osmose, através da minha mãe, sempre me fez admirar os pintores franceses (principalmente os impressionistas), os poetas franceses (Rimbaud, Verlaine, Baudelaire)… Depois, pela minha própria conta e risco, a arquitetura francesa (Le Corbusier), o cinema francês (Jean Renoir, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Louis Malle, Truffaut, Resnais, Bresson e tantos outros), sempre me senti próximo a Isabelle Huppert, Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Miou-Miou, Jeanne Moreau, Juliette Binoche… Até uma simples propaganda aumentava minha paixão: “Jacqueline Bisset usa Lux De Luxo”. E assim continuo na contemporaneidade: adoro o duo Frances Air, adoro o ator Romain Duris, a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg… E desde a primeira vez que vi Mélanie Laurent foi amor ao primeiro filme. Fico até sem fôlego! Pois bem. Mas na primeira vez que fui a Paris em 1988, saído de Madrid, no ônibus a guia já falava da dificuldade dos franceses para com os turistas, e da campanha que estava sendo realizada em Paris para os franceses tratarem melhor seus visitantes. Não teve jeito. Lá na Torre Eiffel fui empurrado pelo guarda que dizia “gentilmente”: S’il vous plaît! Talvez por isso o comportamento dos italianos, que só não chamaram os franceses de santos depois que eles desceram do trem. Muitos falam da tal linhagem francesa, mas existe também a tal galinhagem francesa.
Então voltando ao trem com os italianos. Isso foi em 1995. Eu estava indo de Firenze para Madrid, dois dias de trem. E no começo éramos cinco na cabine: eu, os dois italianos e o casal francês. Realmente a cabine era um túmulo até o casal francês descer. E como eu já disse, não sei se o casal era mesmo antipático ou essa memória foi implantada pelos simpáticos italianos, que ao saber que eu era brasileiro tiraram umas cervejas de uma bolsa, me ofereceram uma, e de repente colocaram em cima de uma das camas da cabine um… embrulho! Algo enrolado com papel de embrulho, algo grande. Era simplesmente um… frango!
– Qui si deve mangiare! Qui si deve mangiare!
Até Madrid foi uma esculhambação. Rimos muito e até virei professor de espanhol para os italianos. Como, eu não sei. Com meu italiano macarrônico e meu espanhol já quase esquecido fiquei traduzindo coisas como:
– Como é mulher em espanhol?
Tio e sobrinho estavam indo morar no Canadá, em busca de uma vida melhor. E foram à Espanha fazer uma viagem de despedida, em busca de voos mais altos.
Asas pra que te quero! E tome frango!

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