A Ocasião Faz o Leitor

Meu irmão mais velho dizia o tempo todo que eu precisava ler. Pegava no meu pé mesmo. Sempre reforçava a importância de ir além das obrigações escolares. Na época, eu estava entrando na adolescência. Minhas prioridades, evidentemente, eram outras. Não muitas. Mas certamente mais urgentes. A seção de contos eróticos “Fórum”, da revista “Ele & Ela”, era a única leitura extracurricular de meu interesse. Contudo, me senti desafiado pela cobrança do primogênito. Decidi que seria um leitor. No futuro, claro.
Com uma ajudinha do acaso, acabei chegando lá antes do que eu imaginava. Um belo dia, entro no quarto do meu irmão e vejo um livro sobre sua cama. A publicação tinha uma força magnética que me atraiu imediatamente. Refiro-me à ilustração da capa. Sobre um fundo vermelho, destacava-se a foto de uma menina loira com um par de seios perfeitos. Não se via o rosto inteiro da beldade, mas o busto ficava bem à mostra. Uma isca perfeita. Até hoje, agradeço a essa ousada decisão mercadológica: foi a primeira vez que, por livre e espontânea vontade, me dispus a ler um livro.
Era um desses best sellers de banca de revista. Nunca me esqueci da foto nem do título, que eu sequer sabia pronunciar: 79 Park Avenue. Escrito por Harold Robbins, tinha muito mais erotismo e violência do que seria recomendado para a minha idade. Bingo. Li o danado de um fôlego. Fiquei apaixonado pela heroína, a qual dotei de um corpo digno dos seios da ilustração. Aquilo foi como descobrir um mundo novo. Não sei se o livro tinha algum valor literário e não importa. Cumpriu uma função inesperada. E muito bem-vinda.
A partir daí, nunca mais parei de ler. Lembro do prazer que era vasculhar a estante de livros procurando um novo universo para entrar. Às vezes, era um desafio. Mas nunca me dei por vencido. Forçava-me a continuar, mesmo diante das leituras mais difíceis. Cedo ou tarde engrenava, pegava o ritmo, e o esforço era recompensado. Outras vezes, seguia aos trancos e barrancos só pelo gosto de chegar ao fim.
Relembrando esse início bem pouco ortodoxo, fui pesquisar na internet. Li em um site que o editor brasileiro de Robbins creditava a tradução a Nelson Rodrigues por puro marketing: apenas para associar o nome do mestre da sacanagem gringa com o nosso anjo pornográfico. Segundo Ruy Castro, que escreveu sua biografia, Rodrigues levava um troco pelo empréstimo do nome. Deve ser o primeiro caso de Ghost Translator da história. Sacanagens à parte, fica aqui meu agradecimento ao editor oportunista. Se não fosse por ele, talvez eu nunca tivesse desenvolvido o hábito da leitura.

One Comment

  1. Viva a todos os editores e capas e cheiros e irmãos leitores e ‘ chatos ‘ que nos remetem ao universo literário ,fefe ! Como diz INEs Pedrosa , os livros nos salvam . Ou, no mínimo , nos ajudam a viver . No paraíso que habita meu imaginário há milhões de livros e mundos íntimos e desconhecidos , à espera do descobrimentoS.

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