Morte aos Infiéis!

Somos dependentes das histórias. Precisamos delas. Não só em termos sociais, mas também como forma de organizar a memória, segundo a ciência cognitiva. Pesquisas indicam que se aquilo que lembramos não faz muito sentido, o cérebro é capaz de preencher automaticamente os espaços vazios, completando a narrativa. Isso explicaria por que duas testemunhas oculares podem permanecer absolutamente convictas de suas versões, ainda que opostas. Coerência é mais importante do que precisão. Alguns séculos antes de Cristo, um tal de Aristóteles já tinha intuído isso: “Para o propósito da (história), uma impossibilidade convincente é preferível a uma possibilidade não convincente”.
Levava-se muito a sério o poder da narrativa na Grécia Clássica. O teatro era usado como uma forma de induzir as pessoas à catarse, uma espécie de purgação das emoções. Isso acontecia na explosão do clímax. Acreditavam que, por meio da catarse, sentimentos maléficos seriam liberados, purificando a mente. Assim como um purgante faz o corpo expelir toxinas. Hoje, guardadas as proporções, o cinema e a TV talvez cumpram uma função parecida. Quem nunca saiu de um filme se sentindo aliviado, eufórico ou numa espécie de êxtase?
É incrível que histórias criadas por Shakespeare no século XVI ainda mexam com nossas emoções, gerando incontáveis adaptações para o cinema e o teatro. Uma boa história é eterna porque se conecta com alguma coisa profunda em nossa humanidade. E isso pode ser usado para vários propósitos. Nem todos nobres.
Uma das ferramentas fundamentais na construção de uma narrativa eficaz é a polarização. Os gregos também sabiam disso. Como tinham deuses associados a sentimentos, eventos e todo tipo de coisa, tinham também para as disputas. Chamava-se Agon. Esse deus regia conflitos, competições, julgamentos ou quaisquer situações onde uma parte deveria predominar sobre a outra.
No seu “A Jornada do Escritor”, Christopher Vogler diz que “As histórias tendem a ser polarizadas como duas forças essenciais da natureza, eletricidade e magnetismo”. Um bom protagonista não será tão sedutor se não tiver um antagonista à sua altura. James Bond que o diga. Somos condicionados a perceber a realidade em termos de opostos (quente/frio, luz/trevas, sorte/azar, alegria/tristeza, vida/morte). E na maior parte do tempo, tendemos a pensar de forma simplificada: fulano tem razão, cicrano está errado; minha religião é verdadeira, as outras são fraudes; você não concorda comigo, então está contra mim.
As histórias que nos emocionam, em sua grande maioria, surgem do conflito entre forças antagônicas. Robert Mckee, referência para roteiristas mundo afora, diz o seguinte: “O primeiro princípio do design do elenco é a polarização”. Uma narrativa que transgrida essa ideia de oposição arriscará não despertar o interesse do público. Isso é tão certo quanto maniqueísmo em telenovela.
Para agradar a gregos e americanos, escritores, políticos e marqueteiros sempre usaram e abusaram desse conceito. De Hitler a Stan Lee. Para o bem e para o mal. O problema é quando nosso vício em polarização é usado para propósitos sombrios. Historicamente, a demonização do outro parece ser uma tentação irresistível. E tristemente eficiente. Judeus, índios, cristãos, estrangeiros: vale tudo. O candidato a bode expiatório nem sequer precisa ser um grupo nominável. Na falta de um inimigo definido, apela-se para o “nós contra eles”. O resto é história. Alguém duvida que o diabo é a criação mais esperta do mundo?

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