Dersu Uzala é Dez!

Pesquei essas duas sinopses na internet:
1 – A aventura de um explorador e cartógrafo russo na Sibéria, onde pretende mapear toda a região. Para isso conta com ajuda de um caçador mongol (Dersu Uzala).
2 – Uma taxista leva 10 passageiros por Teerã, Irã, mostrando a situação da mulher no país.
Dois filmes diferentes, de estilos e épocas diferentes: “Dersu Uzala” de Akira Kurosawa (1975) e “Dez” de Abbas Kiarostami (2002). Quando terminei de assistir a “Dez” imediatamente me lembrei de “Dersu Uzala”. E fiquei intrigado com a espontaneidade com a qual me veio tal associação. Então saquei: espontaneidade!
É a espontaneidade que há nos dois filmes que tanto me fascina. Em “Dersu Uzala” a ficção se confunde com a realidade e em alguns momentos parece mais um documentário. Principalmente quando a natureza é personagem e atua de uma forma tão forte e, logicamente, natural, que me pergunto: como roteirizar cenas que foram flagradas naquele momento, no trânsito imprevisível da natureza?
O mesmo em “Dez” – filmado totalmente no interior de um carro. Os diálogos no carro em movimento, a interação com outro tipo de trânsito (o urbano) que também parece não ter sido roteirizado. Enfim, tenho a impressão que nesses filmes o roteiro é um norte que de vez em quando interage com outros pontos cardeais. Evidentemente que a história, a temática, as questões levantadas, a utilização dos recursos técnicos, tudo tem seu lugar claro no conjunto da obra, tem sua força e importância prioritária indiscutível. Mas assim como em “Dersu Uzala”, em muitos momentos há em “Dez” uma entrega do filme a uma espécie de acaso ou improviso que é captado por uma câmera meio big brother a serviço de um estilo, uma estética, um fazer diferenciado. A espontaneidade e ambigüidade desses filmes apontam para o desconcerto que faz deles obras originais no mundo do chamado “cinema de autor”.
No site Contracampo (http://www.contracampo.com.br/60/dezcineclube.htm), Filipe Furtado escreveu: “Abbas Kiarostami descreveu ‘Dez’ como um filme sem diretor. Paradoxalmente quanto mais sem diretor o filme se revela, mais ele se afirma como um filme de Abbas Kiarostami”. E mais: “A função de diretor parece se tornar muito mais a do promotor de uma situação”… “o cineasta acaba com a linha tênue do documental e ficção”.
Para Ritter Fan do Plano Crítico (http://www.planocritico.com/critica-dersuuzala/), sobre o ator que interpretou Dersu Uzala: “Munzuk não parece estar atuando. Ele simplesmente é Dersu Uzala.”
Quando revi “Dersu Uzala”, lembro que alguém me disse: mas você ainda tá nessa de “Dersu Uzala”?
Nesses tempos de ritmo frenético televisivo e de velocidades hollywoodianas parece não haver espaço nem tempo para o “pensar imagem”.
Eu bem poderia ter chamado esse post de “Em busca da espontaneidade perdida”.
 

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