Ideia Solta

“Peguem essa ideia, peguem essa ideia!” – gritei desesperado enquanto a via sumir pelos labirintos do inconsciente. O ego ainda tentou agarrá-la, mas ela corria com a velocidade do pensamento. Evadiu-se numa fração de segundo de desconcentração.
Não morreu, acovardou-se. Ainda não estava pronta para nascer. Uma ideia precisa ser retida na memória o tempo suficiente para uma gestação adequada. Essa foi gravidez psicológica interrompida: sequer chegou a existir. Voltou para as profundezas da mente, recusando-se a ver a luz. Uma pena. Desconfio que era das boas. Provavelmente, uma dessas ideias que almejam a eternidade.
Uma promessa de ideia genial que se revele mera propaganda enganosa não é necessariamente um tormento. Tem-se a expectativa e depois a frustração. Mera dissonância cognitiva. Passa. Morre no exato momento em que vem ao mundo. A ideia intuída e não gerada, por sua vez, deixa em seu lugar um incômodo vazio de possibilidades. É miragem que envenena a mente.
Como um viciado em jogo, persegui um prêmio cuja existência era incerta. Quis reconstituir os fatos, mas fracassei. Tentar recriar uma ideia abortada na memória é tão inútil quanto se esforçar para dormir. É algo que não depende do trabalho consciente nem se subordina ao intelecto. Pode-se até reencontrar uma ideia desaparecida num sonho ou num delírio: resíduo da obra do acaso. Mas é raro. Não dei essa sorte.
É claro que ninguém desiste de uma boa ideia facilmente. Menos ainda de uma que se perdeu no futuro do pretérito. Contudo, é preciso desapegar em algum momento, sob o risco da ideia perdida virar obsessão. Não é fácil. O simples ato de pensar nessa não-ideia, a coloca num lugar onde ela permanece em um existir latente. E a razão não pode tudo: constatar a ausência de um membro amputado não o impede de coçar.
Sinapse improvável, desgarrou-se prematuramente da rede neuronal; inacabada, verde, promissora. Ideias não crescem sem conexões. São promíscuas. Estão sempre à disposição de quem chegar primeiro. Perder uma grande ideia para sempre é certamente desgostoso. Pior ainda é ver sua ideia tão original, tão nova, tão sua, ressurgindo no pensamento alheio. Ideias soltas são assim. Não têm dono nem sentimentos.
Acabei por me convencer de que a ideia fora roubada. Mas não consegui extrair do cérebro uma única imagem para um retrato pensado. Ignoro de onde tenha vindo e para onde foi. Tudo o que sei é que devia ser uma grande ideia. E era.
Reencontrei-a quando já não a buscava. Apresentava-se com ares de retórica fresca, mas o raciocínio mostrou-se incomodamente familiar. Reconheci-a no mesmo instante. Despudorada, mostrou-se em todo o esplendor do potencial que um dia adivinhei. Entregara-se a outro. Ninguém jamais saberia que um dia fora minha. Ou quase. Bandida.

3 Comments

  1. Fernando, quanta intimidade com as letras! Me lembrou imediatamente uma poesia que me encantou no início da minha fase adulta “a ideia” de Augusto dos Anjos. “De onde ela vem?! De que matéria bruta
    Vem essa luz que sobre as nebulosas
    Cai de incógnitas criptas misteriosas
    Como as estalactites duma gruta?!
    Vem da psicogenética e alta luta
    Do feixe de moléculas nervosas,
    Que, em desintegrações maravilhosas,
    Delibera, e depois, quer e executa!
    Vem do encéfalo absconso que a constringe,
    Chega em seguida às cordas do laringe,
    Tísica, tênue, mínima, raquítica …
    Quebra a força centrípeta que a amarra,
    Mas, de repente, e quase morta, esbarra
    No mulambo da língua paralítica.”

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