De Volta ao Quarto

Em 1982, durante o Festival de Cannes, o cineasta alemão Wim Wenders utilizou o quarto 666 do Hotel Martinez como set de gravação de uma série de entrevistas sobre o futuro do cinema. Convidou diversos diretores da pesada como Jean-Luc Godard, Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Michelangelo Antonioni, entre outros. O resultado está no filme “Quarto 666”.
Gosto muito desse filme e sempre volto a esse quarto. Uma das coisas legais dos DVDs são os extras. Quero destacar os extras do DVD do “Quarto 666”. Mais especificamente a parte que o filme é todo comentado por Wim Wenders 20 anos depois. E comento aqui alguns momentos do filme. Algumas das frases destacadas abaixo o próprio Wenders destacou:
“O cinema é mostrar o invisível”.
(Godard)
“Os filmes estão se polarizando. Um estilo de cinema, o cinema-sensação tende a ser colossal e bombástico. Isso está muito óbvio. Por outro lado, como eu já disse, há um estilo de cinema muito individual ou um cinema nacional formado por cineastas individuais que hoje em dia é muito mais importante que o cinema que não se distingue da televisão”.
(Fassibinder)
Foi a última vez que Wim Wenders viu Fassibinder. Ele morreu 03 semanas depois dessa filmagem. Wenders comenta: “Mal sabia eu que este seria um dos últimos momentos registrados da vida dele”. Em outro momento, Wenders ri observando as imagens de Werner Herzog. Werner desligou a TV e tirou os sapatos para dar seu depoimento. E Wenders comenta: “Há tempos a realidade ultrapassou os sonhos mais loucos do Werner sobre o que seria possível fazer no futuro. A internet não tinha sido inventada e, como eu já disse, ninguém conhecia a palavra digital”.
“Não estou muito preocupado com o cinema. Porque, seja qual for o futuro do cinema, não será o futuro da vida. A vida acontece em outro lugar. Onde a vida for dinâmica, onde a vida toque a gente de forma direta, é aí que vamos encontrar o cinema. E é isso que vai sobreviver. Somente isso sobreviverá para sempre”.
(Herzog)
“Vamos pegar as novas tecnologias e utilizá-las sem deixar que os outros as utilizem de forma abusiva. Vamos utilizá-las como forma de expressão”.
(Antonioni)
Fiquei emocionado quando vi Antonioni. É um dos meus cineastas preferidos. A resposta que mais chocou Wenders foi a de um cineasta francês. Mas essa eu não vou contar. Filmes existem para serem vistos. E não para serem contados. A porta está aberta, é só entrar no quarto.
Carito Cavalcanti
P.S.1:  “De volta ao quarto 666” é o título de um curta-metragem brasileiro, do gaúcho Gustavo Spolidoro, que aproveitou a passagem de Wim Wenders por Porto Alegre em 2008. Segundo Marco Tomazzoni (http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/quotquotde-volta-ao-quarto-666quotquot-e-escolhido-melhor-filme-da-mostra-gaucha-em-gramado/n1237625736759.html), “Spolidoro convidou o cineasta alemão para ficar na frente das câmeras e falar sobre o futuro do cinema, em uma inversão de papéis inspirada no filme ‘Quarto 666’”.
P.S.2: Fiz um curso com Gustavo Spolidoro no Festival Sagi Cine, em Barra de Camaratuba, alguns anos atrás.  Durante o curso (“Cinema de um homem só”) me identifiquei muito com o conceito de “filme-ensaio”, onde o acaso guia o filme, e ele não se encaixa numa categoria específica.

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