A Embriaguez do Frevo em Textos e Pretextos

RECAÍDAS E VINDAS
Passei boa parte dos carnavais dos anos 80 em Olinda. Não lembro exatamente quando deixei de ir passar o carnaval em Olinda. Mas lembro que em algum carnaval da década de 90 tive uma recaída. Eu estava em Moreno, interior de Pernambuco, com minha família, descansando em um canto de um hotel fazenda, tranqüilo, na minha. Meu irmão mais velho, João Hélder, começou a tomar gim. Eu o acompanhei e não deu outra: com muito gim na cabeça e um músico tocando aquelas músicas típicas do carnaval de Olinda na piscina do hotel, tive uma recaída. E bateu aquela vontade de trocar aquele canto por quatro. E no outro dia logo cedo, nos quatro cantos cheguei e todo mundo chegou, me encontrei com minha amiga Patrícia Torres, com o Elefante, a Pitombeira, e tome ladeira. Pois se o céu pode esperar, a Sé não pode esperar. A Sé não costuma faiar. E tome mais ladeira, e tome pau do índio!  Por sinal, por falar em Patrícia Torres, em gim, pau do índio, lembrei que foi ela quem inventou o Gim Morrison! Porque sacou que essa bebida enfeitiça o corpo e atiça a mente. Esse ano voltei Recife, não só em pensamento, em corpo e Uber. Dentre os escritos durante a folia, destaco abaixo:
FREVO BABILÔNIA
Há 42 anos Seu Fernando viu um documentário sobre Recife. Português, da cidade do Porto, quis fugir da crise de seu país e comprou uma passagem pro Brasil, atraído pelo documentário. Comprou passagem ida e volta, sem saber se usaria a passagem de volta. Não usou. Trabalhou no Recife na indústria farmacêutica, e agora aposentado está trabalhando como Uber pra poder conversar. Com um sotaque português-pernambucano diz orgulhoso que conhece muito bem o Recife e isso ajuda muito no seu novo trabalho. Conhece mesmo. Nos levou pra Olinda rapidinho, pelos melhores atalhos, driblando o trânsito, por entre rios, pontes e overdrives.
BODEGA ORGÂNICA
Eu tava era sentindo falta disso. Entrar na bodega e ir direto no balcão, sem ter que comprar ficha antes no caixa. No balcão mesmo pedir e pagar, e receber a bebida naquele apertado que vai se ajeitando e vai dando certo. Um bocado de gente no frevo do balcão. Na bodega e na rua, a melhor definição de corpo a corpo: Olinda!
MEU CORAÇÃO SANGRIA
Meu coração sangria! Volto para o Carnaval pernambucano depois de tanto tempo. E o tempo aparece também na poesia do filme “A Forma da Água”, porque sempre cabe um cinema no meio da folia. E já tô sentindo saudades do Boi Marinho em Condado, do Bloco “Bumba Meu Bowie” e a chegada triunfal junto ao mar de Olinda, da Bodega do Veio, das compras de livros e filmes na Livraria Cultura, da emoção do Patusco e o casal de fundadores que foram os primeiros namorados estando juntos até hoje, o visual do caralho lá da piscina do prédio onde Nalice mora no Pina, os cafés da manhã de Rosa, as camisetas de rock e cinema que comprei no shopping Rio Mar, o motorista português do Uber mágico, o restaurante argentino onde meu coração sangria, a despedida com César e Titina no Pátio de São Pedro com o show de Jorge Cabeleira. Será esse um Carnaval multicultural? Voltei Recife, Olinda situação!
 

  • Foto por: Nathalia Santana

2 Comments

  1. Carito
    Me vi em Recife
    Como é bom ler teu texto e rever e redentor a mágica do Cá naval de Olinda e Recife

  2. Bateu uma saudade desse amigo-poeta-véi-de-guerra…Esse cabra escreve parece que tô vendo! Adorei o texto , Carito!

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