Extraviada 2

N., Minha Flor:
 
O tempo foi generoso com você. Não deixou só a beleza intacta; a lucidez e o raciocínio agudo continuam os mesmos. Isso sim é invejável. Também não costumo reclamar da vida, mas já que não nasci com uma aparência privilegiada como a sua, um pouco mais de inteligência seria uma justa compensação. Culpa da loteria genética, o jogo mais sacana que existe: uma competição onde se entra com um time escalado aleatoriamente e sem direito a substituição. Portanto, minha linda, não lamente sua desorganização. As mentes mais criativas padecem desse mal. Nós, reles mortais, temos como única opção, o método.
Não, nunca cheguei a pensar que vivemos em um mundo simulado por um programa de computador ou coisa do gênero. Mas sei que entre o céu e a terra há muito mais do que lixo espacial. Acredite. E já que esse assunto veio à tona, preciso fazer um desabafo. Não se assuste.
Estou seriamente preocupado com minha sanidade. Um fato ocorrido na semana passada tem me tirado o sono e a boa digestão. Se foi efeito colateral dos meus excessos, o início de um quadro de demência ou uma experiência realmente extraordinária, não saberia dizer com certeza. Tremo, agora mesmo, só de repassar a cena na memória. Por razões óbvias, peço-lhe que guarde para si esta confissão aparentemente estapafúrdia. Fui abduzido. Pronto, falei.
Você bem sabe que o ceticismo e o ateísmo foram os únicos “ismos” que não abandonei ao longo da vida. Sempre vi minha própria descrença como um símbolo de integridade científica, um atributo inegociável. Pois bem, o impacto do que experimentei foi suficientemente forte para abalar os alicerces de minha formação acadêmica. Se a este ponto você já tem certeza que enlouqueci de vez, saiba que cheguei a cogitar uma internação voluntária. Se ainda não o fiz é porque – à parte esse episódio isolado – continuo discernindo perfeitamente a fantasia da realidade. Ademais, a perda da razão é uma hipótese menos assustadora do que admitir a veracidade dos fatos que narro a seguir.
Era pouco antes da meia-noite quando deitei na rede da varanda. Relaxei imediatamente e caí num sono profundo. Algum tempo depois, tive a consciência de estar desperto, mesmo sabendo que ainda dormia. Senti o corpo flutuar, o que normalmente é agradável e acontece em algum estágio entre o sono e a vigília. Mas dessa vez foi mais real do que eu gostaria. Fui arrancado desse transe num susto. Tentei abrir os olhos, mas uma forte luminosidade me impediu. Instintivamente, direcionei o olhar para baixo, na direção oposta à da luz. Fui tomado de pânico. Estava literalmente flutuando uns vinte metros acima da minha casa. Apaguei novamente. A próxima coisa que lembro é acordar em um local ligeiramente ovalado, onde não se distinguiam paredes ou ângulos retos. Estava suspenso do chão, numa espécie de cama invisível, como se a gravidade não atuasse sobre mim. A iluminação difusa tinha um colorido difícil de descrever. Dois jovens flutuavam ao meu lado, inconscientes. Acredito que se tratava de algum tipo de enfermaria ou talvez um laboratório. Curiosamente, não tive um pingo de medo. Era como se o ar que respirava tivesse um efeito sedativo. Calculo que fiquei por muitas horas nesse estado de torpor.
Aconselho-a a interromper a leitura agora, caso já esteja às gargalhadas ou lamentando meu estado mental. Essa foi a parte mais verossímil de minha aventura. A partir daí, as coisas ficam realmente estranhas.
Virei para o lado e vi um ser de aparência quase humana se aproximar. A pele tinha um tom violáceo e um brilho sobrenatural. Os olhos, de um preto profundo, miravam os meus sem se deter, como se me atravessassem. Intui que era do sexo feminino, o que foi confirmado pela criatura, que começou a falar-me em pensamento. Perguntei ao alienígena o que queriam de mim. Ela me devolveu a pergunta: “O que você quer de você”? Fiquei ainda mais confuso. Antes que eu pudesse responder, do lado oposto, uma mão humana tocou o meu ombro. E era como se a própria Vênus tivesse me tocado. A pele branca, imaculada, quase marmórea, contrastava com os cabelos ruivos e os lábios carmim. Estava completamente nua. Sem falar nada, começou a me acariciar. Tentei argumentar que não era a hora nem o lugar adequados, mas ela apenas sorriu, avançando nas suas intenções. É difícil crer que alguém possa ter uma ereção numa situação dessas, concordo. Mas, com o perdão pelo trocadilho, ela me fez um sexo oral do outro mundo. Foi o bastante para acabar com quaisquer resquícios de pudor e bom senso. A ruiva se debruçou sobre mim sem nenhuma cerimônia. Deixei-me cavalgar, dócil e imóvel como um pônei de carrossel. A cabeleira de fogo roçava meu peito, incendiando o resto do corpo. Já perto do clímax, ela sacodiu a juba num movimento pendular. Nossos olhares se encontraram, se é que posso dizer isso. Na verdade, fui trespassado como se ela mirasse um ponto situado no infinito. Gelei. Soube na mesma hora que estava fazendo sexo com uma extraterrestre. E isso é tudo o que lembro. Acordei nu e com uma dor de cabeça absurda, no gramado do quintal.
Julgue-me como quiser. Mas saiba que você é a única pessoa a quem poderia confidenciar uma memória tão insensata. Depois do ocorrido, já não me sinto eu mesmo. Passo noites a fio com o olhar grudado nas estrelas, esperando nem sei o quê. Confesso que a ruiva celestial não sai de minha cabeça. Mas deixa-me desconfortável pensar que posso ter sido usado como reprodutor num experimento científico intergaláctico. Nunca precisei tanto de seus conselhos, sua lucidez e seus remedinhos de tarja preta.
 
Do seu sempre,
W.

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