Um olhar entre mundos

Eu era bem menino e já ficava encantado com uma enciclopédia que trazia legendas estilizadas comparando as produções de ouro, ferro, café, manganês, bauxita, açúcar dos países. Eu ficava fascinado com as filas de pequenos lingotes representando a produção de cobre do Chile, de ovelhas indicando a produção de lã da Nova Zelândia ou de raminhos em verde e vermelho indicando a gigantesca produção de café do Brasil.  Eu viajava pelo mundo nessas divertidas legendas coloridas.
Depois da produção agrícola, mineral e industrial, passei a comparar outras coisas como extensão do território, a população, o PIB, a renda per capita, a densidade populacional. Gastava horas visitando enciclopédias, atlas e almanaques nessa compulsão de comparar os lugares do mundo. A mania infantil tornou-se uma espécie de vício. E passei a comparar instituições, modos de vida, marcos normativos, formas de ver a própria sociedade, éticas, etiquetas, modelos morais, a relação dos povos como o planeta…
Comparar é uma maneira de viajar sem sair do lugar. É um belo exercício para aceitar as diferenças do mundo e de aprender com as lições dos outros como construir uma sociedade melhor, um país melhor e um mundo melhor. Podemos descobrir também como não fazer alguma coisa. Claramente, podemos aprender com o erro dos outros.
Se eu comparo a forma como a Costa Rica trata o meio ambiente com a maneira como os países mais industrializados tratam, estarei conhecendo um caminho de como o ser humano deve se relacionar com o planeta e, consequentemente, de como não deverei tratá-lo.  Se eu comparo o status que o meio ambiente tem na vida dos indígenas da Bolívia e do Equador com aquele que americanos, brasileiros, chineses e russos têm, posso provocar uma subversão das minhas ideias acerca do desenvolvimento humano. Se eu comparo a forma como os suecos e brasileiros tratam a coisa pública, eu me permitirei conhecer alternativas de tratamento respeitoso ao patrimônio comum de todos e o caminho para a coesão social.
Comparações podem trazer desconforto, desalento, irritação e, em casos mais graves, até vontade de emigrar.  Outras vezes ficamos imensamente felizes por termos nascido no lugar que nascemos. A perplexidade decorrente da comparação é sempre enriquecedora e atende, sem qualquer custo financeiro, milhas aéreas, filas em aeroportos e carimbos no passaporte, a uma necessidade básica do ser humano: conhecer o mundo.  Bem, pelo menos essa é uma necessidade básica dos seres humanos mais interessantes…
São muitas as possibilidades de comparação. O mundo, ainda bem, é extremamente diverso. Há muitas diferenças culturais, morais, históricas, econômicas, políticas, institucionais, geográficas, geopolíticas, filosóficas, éticas a serem exploradas. Não faltarão temas, muito embora toda comparação honesta demande alguma pesquisa e tempo. Portanto, um aviso: não me comprometo prioritariamente com a periodicidade dos posts e, sim, com a fidedignidade da comparação.
Outra coisa deve ser dita: o desafio de se colocar entre lugares tão diferentes e muitas vezes espantosamente opostos é um exercício extremamente rico que, aliás, estimulou e fundamentou a construção de muitos saberes que cuidam exclusivamente de comparações, como o direito comparado ou a história comparada. Aqui os textos não terão obviamente qualquer pretensão acadêmica. Os meus propósitos aqui, além da satisfação das demandas inerentes ao meu transtorno obsessivo compulsivo já manifestado na infância, serão simplesmente dois: 1) pesquisar e conhecer as diferenças e 2) possibilitar um certo estado de perplexidade reflexiva.
É certo que a neutralidade absoluta de um escrevinhador não existe.  Mas, embora esteja consciente de que muitas vezes a comparação possa funcionar como uma denúncia, não está entre meus objetivos polemizar. Ou convencer alguém, em todos os casos, do acerto de um dos lados em comparação.  Não tenho quaisquer pretensões universalistas, não estou comprometido com qualquer lado do mundo e não vejo superioridade de qualquer país em todos os assuntos humanos. E se hoje há países ricos, desenvolvidos e socialmente coesos coexistindo com países miseráveis, socialmente dilacerados e dominados por elites sanguinárias, isso pode ser explicado, em grande medida, pela história e pelas relações de poder que determinaram o atual desenho do mundo. Parto do princípio de que todos os países e povos têm coisas a serem celebradas e coisas a serem lamentadas. Em qualquer caso, a perspectiva será sempre lúdica. Exatamente como aquela que eu tinha na infância.

One Comment

  1. Olá Ricardo, que belo texto. Me fez pensar em tantas coisas… às vezes seguimos evitando comparar, para talvez aceitar algo (ou aceitar-se genuinamente)- mas há tantos caminhos através da comparação. Me fez pensar um pouco na importância de um país enraizar seus saberes e conhecimentos em si mesmo, um pouco da ideia de “Epistemologias do Sul” de Boaventura… para então poder comparar-se de igual para igual com aqueles que lhes tem servido de modelo e orientação até hj. Enfim… da no que pensar! Parabéns a vocês pelo blog!!

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