O Ópio do Micróbio

Um dia ele apareceu, veio do vaso. Não de plantas. De cocô mesmo. Veio do fundo do vaso para o raso do apartamento.

– Esse apartamento dá pé. Vou ficar por aqui.

Foi ficando e se alimentando de tudo que via. E o que mais via era um homem e seu computador. Sentado, sempre, todo dia. O micróbio olhava pra cima e só via o fundo da cadeira com o homem sentado em cima.

– Pô! Melhor talvez fosse o fundo do rio do vaso do que esse raso. Esse raso não tá mais dando pé. O que será que esse cara faz o tempo todo sentado aí com esse computador? Ah! Preciso crescer pra descobrir isso. Isso aqui tá ficando chato. A mesma poeira de sempre. Vou voltar pro vaso, pra mesma merda de sempre. Aquela lá eu já conheço.

Mas não voltou pro vaso. E foi se alimentando de tudo e fez amizade com as traças e foi traçando tudo, livros, letras, até descobrir que estava comendo os livros do escritor que ficou puto com a situação.

– Também… a maior bagunça aqui, livro no chão, esse cara queria o quê? E olha o nome do cara: Thomas de Quincey. Vive doidão! Esse cara já morreu! Eu tô sabendo tudo desse cara com essas letras aqui dentro que eu tô comendo, e tô comendo muito, já tá chegando na mente, que história doida: “Confissões de um comedor de ópio”. Será que esse ópio chega por tabela? Acho que tô doidão também! Quem sou eu? Um micróbio ou um homem? E que é que esse rato está olhando pra mim? Pôrra! Quer direito autoral pela frase, só porque tá sempre dentro dela? Já sei: sou um homem ou um rato? Besteira! Chega pro prato também. Amém! Que eu tô traçando tudo e já tô da altura da cadeira. Afasta aí, cara! Chega pra beira! Quero ver o que você tá escrevendo.

E o micróbio virou micróbio-computador e foi se alimentando de tudo de novo, do monitor e…

– Por que é que esse mouse tá olhando pra mim. E você também, cara! Você é um homem ou um mouse?

Virou macróbio e não coube mais no apartamento. Ganhou o mundo, dominou o mundo, cheio de problemas para administrar, entrevistas pra dar, e até a mãe pra vender. Sua vida agora era pública.

– Que saudades do vaso. Aquilo é que era merda de verdade. Lembrou do homem sentado na cadeira e escreveu um livro:

“Confissões de um comedor de merda”.

E se jogou no primeiro vaso que apareceu. E mergulhou fundo na vida privada.

(Conto inédito que fará parte de seu novo livro de poesias & afins: Minha Amásia Paranormal)

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