Extraviada 1

* Menção honrosa no IV Concurso Nacional Literário da ALACIB
 
Meu Caro W.,
Queira me desculpar pela forma antiquada de comunicação. Faço uso de lápis e papel não por analfabetismo digital, mas por outro tipo de limitação. Na verdade, tenho até me divertido muito com as novas tecnologias. O fato é que fico bloqueada diante de um monitor. Deve ser efeito dessa luzinha chata que, inclusive, aumentou minha presbiopia. Só por isso recorro ao artifício antiecológico da escrita à mão. Mas devo admitir que precisei de muito esforço e obstinação para superar o medo de computador. Sempre fiquei desconfortável diante de pessoas mais espertas do que eu. Com as máquinas não poderia ser diferente. Paciência. Você sabe que tenho de complicar tudo ou não seria eu mesma.
Não sei se por desígnio do destino ou por alguma deficiência cognitiva, adquiri o hábito de aprender as coisas na marra. Se posso dizer que já encontrei algum rumo na vida, foi tateando no escuro e aos tropeções. Faltam-me método e disciplina. Sempre invejei as pessoas que conseguem planejar cada passo. Desconfio que fazem parte de uma sociedade secreta. Aos não iniciados como eu, resta o caos: é negociar com o acaso e a própria inconstância todo dia. Estou irremediavelmente perdida. Já fui longe demais. Deixei-me guiar por uma bússola que apontava em várias direções.
Foi na porrada ou na displicência que aprendi as lições mais valiosas; as piores besteiras, contudo, as fiz com convicção. Deve ser por isso que nunca consegui me levar a sério: sou muito improvável para ser real. Você também já se perguntou se não seria apenas uma espécie de androide vivendo numa Matrix? Ou talvez um canastrão em algum tipo de reality show cósmico? Bom, não importa. Pode me chamar de romântica, mas ainda estou à procura de um GPS transcendental que me mostre a rota mais lógica e segura.
Não me entenda mal. Estas linhas não são destinadas às minhas queixas. Muito pelo contrário. Não posso reclamar da vida. Gosto de compartilhar com você o pouco que aprendi. E creio que descobri uma ou duas coisas de valor no meu caminho tortuoso. Uma delas é que não adianta lutar, fugir, ou se esconder. Esteja certo de que a dor vai lhe alcançar de uma forma ou de outra. O sofrimento é como o mais inconveniente dos amigos: aparece no meio do desjejum e azeda o leite antes que você o leve à boca; chega bêbado na festa de quinze anos de sua filha e vomita em cima do bolo; telefona de madrugada e interrompe o sonho, impedindo que os números da megasena lhe sejam revelados. A aflição quase sempre se aproxima com cautela, mas costuma
anunciar sua presença com alarde. Traz consigo muitos regalos: azia, dor de cabeça e insônia, entre outras delicadezas. Ao sair, faz questão de ser lembrada: deixa marcas, sequelas e, possivelmente, alguma síndrome ainda não catalogada pelo DSM 5.
Perdoe-me, caro amigo. Se falo tanto de angústia, e com tantos detalhes, é tudo culpa da internet. Leio qualquer bobagem e fico ruminando as palavras por semanas. Ultimamente, ando obcecada por aquele general chinês que recomenda conhecer seu inimigo como a si mesmo. Existe alguma verdade nesse aforismo, muito embora eu mesma me desconheça ocasionalmente. Estou convicta de que, além da lactose e do glúten, encontrei outro inimigo real. Refiro-me, claro, à tristeza, esse sentimento vil que assombra extratos bancários e exames de rotina. Declarei guerra ao sofrimento. Com sabedoria milenar não se discute, meu bem. Acredite nos mestres chineses; desconfie dos produtos. Tenho dito.
Mas falemos de bem-estar que é melhor. Ao contrário do desgosto, a alegria não faz surpresas. É uma visita ilustre que precisa de convite formal e todo tipo de bajulação. Capriche na hospitalidade sempre que intuir sua chegada. Antes que você me critique, advirto que não li isso em livro de autoajuda. Digo por experiência própria. As grandes felicidades precisam de planejamento, disciplina e muita paciência. Eu, como nunca consegui sequer terminar um curso de culinária online, me concentrei nas pequenas satisfações, aquelas migalhas diárias de prazer – quase imperceptíveis a olho nu – mas muito evidentes de corpo inteiro descoberto. Só depois de apanhar muito, cheguei a uma conclusão definitiva acerca da dor e da alegria: uma vem de graça, a outra requer esforço. Falando nisso, preciso correr agora. Literalmente. Meu personal trainer já me aguarda. É minha dose matinal de endorfina, que sempre tento transformar em uma dose noturna de qualquer outra coisa. Infelizmente, sou muito velha e esbelta para os padrões atuais. Talvez mais velha do que esbelta, eu sei. Nem se dê o trabalho de me corrigir, querido. É injusto me comparar com essas meninas criadas à base de Whey Protein, batata doce e suco de cramberry em caixinha.
Despeço-me com a desagradável sensação de que falei demais, mas o assunto essencial perdeu-se para sempre na desordem do meu pensamento.
Beijos da sua,
N.

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