O Perfume das Cores

O telefone toca. É uma chamada de vídeo. Coisa que sempre me deixa desconfortável. Certas tecnologias fazem mal à liberdade e à imaginação. Numa ligação normal, pode-se tirar uma meleca, dar uma mijada ou folhear um livro. Tudo isso sem nenhum prejuízo ao entendimento geral da conversa, e sem correr o risco de ter uma cena doméstica íntima transmitida ao vivo. Já o contato visual é exaustivo. Quando há uma imagem lhe encarando do outro lado, não se espera menos que atenção irrestrita.

Em nome da amizade, rendo-me à tecnologia. Visto uma camiseta menos amassada, passo a mão nos cabelos, sacudo a preguiça da quarentena, e atendo. Afinal não é uma ligação qualquer. Trata-se de um amigo que acaba de acordar de um pesadelo chamado COVID-19. Não é pouca coisa, apesar dos eufemismos oficiais e do negacionismo científico que – sem trocadilho – viralizou nas redes.

Felizmente, meu amigo já está em casa. Na tela, o rosto sofrido emite uma voz fraca e interrompida por crises de tosse. Ele me conta sobre o período em que ficou isolado no hospital. Descreve cada detalhe do ciclo que se anunciava com uma dor de cabeça penetrante e culminava em febre alta. Com um rigor quase científico, cronometrou o intervalo de tempo entre um sintoma e outro, além dos intermináveis minutos que antecediam a ação do remédio. Deve ser coisa de quem está habituado a elaborar planilhas, estabelecer prazos e medir resultados.

De todos os sintomas, aquele que mais o incomodou foi a perda do olfato. Ele descreve um mundo privado desse sentido como um mundo cinza. Relata que já perto de ter alta, uma funcionária veio fazer a limpeza pela manhã. Pouco depois de entrar, a senhora percebeu que o paciente chorava. Ela perguntou se ele estava se sentindo bem. A resposta foi um simples “Obrigado”, seguido da explicação: “Você me deu um presente. Seu perfume é de lavanda, lembrei da minha mãe”. E então choraram juntos. Escuto isso agora e fico com os olhos marejados: na saudade de minha avó materna ainda ecoa o cheiro de lavanda.

A conversa me transporta para o filme de Bong Joon Ho. Em Parasita, o olfato é um elemento crucial na narrativa sobre desigualdade social. Cabe aos odores, na obra, o papel de um muro invisível e intransponível que divide as classes sociais. É inevitável relacionar o simbolismo cinematográfico com a pandemia. Na tela, o olfato representa as diferenças inconciliáveis da sociedade. Na vida real, a sua perda lembra que o vírus não distingue ninguém.

Como se não bastassem os números da peste e a aflição do isolamento, ainda é preciso sobreviver ao ódio e ao obscurantismo das redes sociais. Releio no livro “O perfume”, de Patrick Süskind, um trecho que parece uma profecia desses tempos: “A pior das superstições, como na mais obscura era pagã, quando homens ainda viviam como animais, quando ainda não possuíam olhos aguçados, não conheciam as cores, mas acreditavam poder cheirar sangue, pensavam poder distinguir o amigo do inimigo pelo cheiro (…)”.

Olho pela janela. O céu está cinzento. Conforta-me a ideia de que, além das nuvens, o sol poente tinge o horizonte de violeta… violeta como flores de lavanda.

Posted in Água de Chocalho.

7 Comments

  1. Sensacional, Véio! Conhecemos o personagem da sua narrativa e a emoção de seu salvamento tem nessa situação um dos pontos ápices da vitória dele.
    Quanto ao perfume das cores, é impressionante como isso, de fato, é marcante, como foi na lembrança de sua avó e como tive, coincidentemente ontem, passados 21 anos do falecimento de minha também avó materna. Parabéns pelo texto. Obrigado por ele e pela lembrança que me trouxe à mente.

  2. Gostei muito, Fernando! Dos elementos do texto: recordo o livro “O perfume” que me foi emprestado por minha cunhada (já falecida), o cheiro de lavanda, cheiro de minha infância e, me deleito com as cores de sua fotografia, a qual ilumina o cinza desta segunda feira chuvosa.

  3. Fernando me peguei pensando sobre o receio que você coloca em expor sua intimidade física na internet mas quando você fala através de sua narrativa percebo, será que você o faz sem pudor de expor sua intimidade ? que pra mim é bem mais profunda, pois não têm como passar a mão no cabelo pra mudar o semblante pois nesse momento você se mostra como é, e o que vejo é muito bom, como é rico e interessante as nuances do ser humano parabéns mais uma vez

  4. Massa, Véio. Cheiro é vida. Marca mesmo. Eu identifico pessoas e situações, memórias olfativas. ” … na saudade da minha vó materna ainda ecoa o cheiro de lavanda.”
    Abraço, man.

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