O Baú de Pitolomeu

Pitolomeu insistiu muito tempo em ser criança. Seus familiares sempre lhe deram uma dura:

– Está na hora de crescer. Você não é mais uma criança!

Pitolomeu também teve uma longa adolescência. E ouviu a mesma ladainha:

– Está na hora de crescer. Você não é mais um adolescente!

Um dia Pitolomeu sonhou com todos lhe dizendo:

– Está na hora de morrer. Você é apenas um velho!

Então Pitolomeu correu ao seu baú de inutilidades, guardado desde a infância no sótão da casa, e catou um a um os objetos esquecidos. Desde um perfume usado quando despertou para sua primeira paixão platônica, a ingressos de shows, convites de casamento, postais recebidos dos amigos viajantes, fotografias amareladas, cadernos da escola com os nomes e bilhetes das amigas, fitas cassetes mofadas, discos de vinil, desenhos psicodélicos, revistas coloridas, bilhetes de trem, passagens de avião, conchinhas e búzios das praias, uma calça desbotada, um óculos quebrado, e muitas coisas indecifráveis – escritos ilegíveis, pedaços de panos misturados a outros objetos de forma estranha.

Retirou tudo de dentro e se deitou, fazendo do baú seu caixão. Convidou todos que apareceram no sonho para o seu velório. No convite, os responsabilizava pela sua morte prematura aos 99 anos. Os amigos se assustaram:

– Pitolomeu ficou doido!

Outros amigos acharam aquilo tudo uma grande curtição. E levaram isopor com cerveja e porquinho para o churrasco. Fizeram do enterro de Pitolomeu um verdadeiro picnic. A família de Pitolomeu não gostou nem um pouco dessa história. Sua mãe levou um psicólogo a tira-colo e um padre de plantão.

Cada pessoa que chegava recebia de lembrança um dos objetos de dentro do baú.

Pregado na parede do sótão, algo novo contrastava com toda aquela velharia – um calendário com Eva Green indicava a data: primeiro de abril!

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