Extraviada 9

Minha adorada M.,

Você não está sozinha em sua aflição. A desorientação é o que de mais democrático existe na atualidade. E as novas gerações estão ainda mais fodidas do que nós. O conceito de juventude que conhecemos, aliás, está em franca extinção. A quarta revolução industrial é um fantasma que inviabiliza a liberdade, embora a publicidade insista em dizer o contrário. Se nossas memórias remetem a um tempo delicioso e irresponsável, os jovens de hoje vivem em meio à ansiedade e ao estresse. É vergonhoso não podermos lhes assegurar sequer que herdarão um planeta habitável.

Voltei a beber. Não me recrimine. Dessa vez não foi culpa de uma débil força de vontade. Trata-se de uma decisão consciente, acredite. Tenho mantido o estado de embriaguez com rigor terapêutico. É tudo uma questão de achar a posologia adequada.

A recaída veio com a Beth: uma jovem de grande beleza, alguns momentos de lucidez e curiosidade sexual imune a convenções etárias. Eis aí uma criatura anacrônica no melhor dos sentidos. Pense em alguém que saiu de Woodstock direto para o Lollapaloosa.

Beth vivia em uma espécie de universo paralelo, completamente alheia aos problemas do mundo. Uma mulher evoluída, enfim. Não se inquietava com o destino do planeta e menos ainda com o seu próprio futuro. Consumia uma grande variedade de drogas, mas sempre conseguiu evitar telejornais, redes sociais e cigarros eletrônicos. Eu, como estou longe da iluminação, precisava de algumas doses extras de whisky para acompanhá-la. Só os fortes conseguem atingir o nirvana por meio da química. Não lembro bem, mas acho que fomos felizes.

Sem dúvida, Beth era a última de sua espécie. Num de seus raros momentos de curiosidade terrena, ela quis saber o significado de permafrost. Por pura gozação, expliquei que se tratava de uma prática erótico-gastronômica importada do Ártico e muito apreciada pelo povo inuíte. Ela não só acreditou como quis experimentá-la no mesmo instante. Sim, fomos felizes.

Quando ela apareceu com o barbudinho que se dizia “coach espiritual”, soube na hora que era o fim. Fugiram naquela mesma semana. Não demorei a reencontrar o guru nas páginas policiais. Uma carga de ecstasy aparecera misteriosamente no bucho do Buda de gesso que ele mantinha em seu consultório. O argumento de que se tratava de um caso de materialização não sensibilizou os homens da lei. Para o meu desespero ou alívio, Beth não foi citada na reportagem.

É isso, minha cara. Agora, além do degelo do permafrost, da devastação da floresta tropical, do desemprego e do mau gosto reinante, preciso também esquecer a Beth. Felizmente, tenho evoluído muito na arte da automedicação.

Saudades,

G.

Posted in Água de Chocalho.

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