Extraviada 8

Querido G.,

Acabo de retornar ao nosso país. Cheguei há uma semana e já tenho vontade de ir embora há uns dez anos. Achei tudo muito estranho. Devo ter me perdido na estrada de volta.

Ontem, tentei assistir ao show de um artista tão antigo quanto eu. Tinha uma vaga esperança de descobrir, na trilha sonora do meu passado, um atalho para mim mesma. Não sei – e nunca saberei – se a estratégia teria funcionado. Sozinho com seu instrumento, o músico foi engolido pelo alarido indiferente do público. Foi triste vê-lo sufocando junto com minhas ilusões. Parece que ninguém consegue ouvir mais nada além do som da própria voz.

Estou tentando me adaptar às tendências que surgiram enquanto estava fora. Mas isso só faz aumentar o meu deslocamento. Como vou me encaixar numa época onde defendem-se abertamente o desmatamento, o trabalho infantil, as armas e um tal de sertanejo universitário? Estou completamente por fora. E como se isso tudo não bastasse, odeio gin.

Admito que foi um choque constatar que a última moda é ser fundamentalista com muito orgulho e muito amor. Talvez isso já existisse e eu nunca tenha notado por pura ingenuidade. Perdoe a ignorância. Tem muitas coisas que nunca vou entender como física quântica, o trânsito natalense, os filmes de David Lynch e a taxa SELIC. Tenho saudade daquele tempo em que um certo senso de pudor era suficiente para reprimir o ódio arraigado. A sociedade não vive sem um mínimo de hipocrisia, afinal. Sinceridade demais só é bem-vinda quando não percebemos o próprio mau hálito. E ainda assim, quando a revelação desagradável é feita com a máxima discrição.

Outro dia, li que mais de duzentos tipos de agrotóxicos foram liberados só nesse ano; incluindo aí, alguns com substâncias proibidas no mundo civilizado. Apesar de não gostar da ideia de comer veneno, vejo um lado positivo: se continuar assim, muito em breve poderemos praticar a eutanásia usando apenas salada verde com morangos.

Devo ter lhe cansado com esse falatório todo. Releve. Sinto-me perdida como um Narciso a quem o espelho nega a própria imagem. Só me restaram os amigos e os opioides. Coisa de velha.

Beijos.,

M.

Posted in Água de Chocalho.

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