Extraviada 5

Meu caro S.,

A chegada em Londres não poderia ter sido mais atribulada. Culpa da minha ingenuidade que não atinou para o perigo de trazer goma de tapioca na mala. Passei mais de três horas na imigração tentando explicar, em inglês, que boi deitado não é vaca. Depois de ter bagagem, corpo e alma devidamente devassados, fui liberada sem sequer um pedido de desculpa. Como se eu fosse uma qualquer. Pense num povinho arrogante…

Nunca gostei de aeroportos. A opressão de todo aquele aparato de segurança me deixa logo com um sentimento de culpa por algo que nunca fiz. Fico imaginando se é um efeito produzido intencionalmente ou só mais algum sintoma do meu TOC. A pior parte foi explicar a tia Zulmira que apreenderam a goma dela. Ninguém merece.

Estou adorando a cidade. Que bom poder assistir a bons espetáculos e ir a museus incríveis sem correr o risco de virar churrasco. Mas nem tudo é perfeito no primeiro mundo. Admito que sinto falta dos cuidados da minha secretária, Maricota. Também fico um pouco apreensiva com a quantidade de farmácias, que é muito menor. Ver uma drogaria em cada esquina me tranquiliza de alguma forma. Pode me chamar de subdesenvolvida. Nem ligo. E digo mais: excesso de pontualidade também me irrita. Aqui, até reunião de condomínio começa na hora. Certas coisas são feitas para atrasar. Um dia eles aprendem.

Finalmente, conheci minha sobrinha, Alicia. Seus lindos olhos chamam mais atenção que a enorme quantidade de piercings e tatuagens espalhados pelo corpo. Ainda assim, é difícil manter o olhar fixo em um único ponto durante a conversa.

A menina é bonita, mas confusa. Por baixo do visual agressivo, existe uma intelectual velha e rabugenta. Péssima combinação, diga-se de passagem. Tive que aturá-la uma tarde inteira recitando poesia inglesa e especulando sobre as inclinações políticas de Shakespeare. Precisei de quase uma garrafa de gin para acalmar aquela língua. O que está havendo com esses jovens de hoje? Será que sexo, drogas e rock and roll já não são suficientes? Deve ser culpa dessa maldita música eletrônica. Sempre achei uma péssima ideia trocar bandas inteiras por um sujeito tocando discos de vinil. Deu nisso.

De uma forma ou de outra, acabei me dando bem com Alicia. Sobretudo por causa de uns comprimidinhos que ela tinha e me faziam dançar e suar como uma louca. Por falar em insanidade, numa dessas saídas com minha sobrinha, fiquei tão alucinada que perdi meu passaporte. Você não imagina o incômodo que foi todo o trâmite na embaixada. E o pior: aqui, é impossível encontrar um despachante. Fala sério. Isso não é vida.

Já deu. Chega. Vou voltar mais cedo para o nosso bom, velho e desgastado país. A gente sai dele, mas ele não sai da gente. Aqui é bom, mas é uma merda; aí é uma merda, mas é bom. Jobim sabia das coisas.

Venha tomar um café comigo na próxima semana. A civilização que me desculpe, mas não vivo sem a tapioca da Maricota. Pronto, falei.

 

Love,

Y.

Posted in Água de Chocalho.

3 Comments

  1. … pois é! Acredito por Londres e arredores, deve ser difícil explicar, também, que aqui “em nós”, idiotas chegam ao poder, e mediocridade é “qualidade” eleitoreira. Mas, aqui, também, ninguém larga a mão de alguém.
    Seja bem vindo, de volta , Fernando!!!

  2. Muito bom!! Quisera que os jovens daqui fossem como Alicia. Rabugice intelectual é bem melhor que extremismo (nada intelectual) fascista…

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