Extraviada 13

Oi, amiga.

Obrigada pelo cuidado de sempre. Se descontar os dias ruins, estou até bem. Tentando fazer as pazes com o tempo, esse filho da puta que leva o poema do nosso balançado e deixa a artrite no lugar. Estou procurando me cuidar mais. Comecei o ano largando tudo o que acelera o envelhecimento: álcool, açúcar, cigarro e twitter. Só não desapeguei ainda de viver, que é a coisa mais prejudicial à juventude.

Não quero ser negativa, mas devo admitir que o novo ciclo não estreou com os melhores auspícios. Passar o réveillon isolada e completamente sóbria foi overdose de realidade. Tive que recorrer ao Rivotril emergencial.

Ainda no fim do ano passado, fui levada para ver o raro alinhamento de astros, o reaparecimento da estrela de Belém, o sinal da nova era. Não vou mentir, fiquei empolgada. Júpiter e Saturno numa conjunção que não sei o que significa, mas decidi que era um bom sinal. Infelizmente, o céu cobriu-se de nuvens e sonegou o espetáculo. Pelo menos não tocaram música sertaneja. E isso é sempre um bom sinal. Preciso aprender a me contentar com pouco. Além do mais, vamos combinar: depois que Sinatra e Jobim gravaram juntos, alinhamento de astros ficou uma coisa meio sem graça.

Falando em sinais, estou chocada com o número de gente boa e talentosa que ejetou do planeta no ano passado. Não temos estoque para repor esse tipo de perda. A situação é de insolvência. Seria mais digno declarar logo falência. Lembrei da previsão dos maias. Vai que um escriba bêbado trocou 2012 por 2021…

Enfim o mercado começou a perceber que o remédio prescrito para o país – a grande panaceia  – nunca teve dose segura: sempre foi veneno. Tarde demais. A droga já está no sistema e a bad trip não quer acabar. Agora é se segurar na sela que a boiada vem a galope.

Lembra do Rui, meu ex? Após sobreviver a uma Covid severa, virou devoto de São Judas Tadeu e vai à missa todo domingo. Está se achando o próprio escolhido. Nunca confie num ateu que tem coach quântico. Isso é bem a cara dele, né? Só um ego tamanho Rui concluiria que é digno de uma intervenção divina direta, bem no meio de uma pandemia que levou milhões. Não resisti e mandei a real: “Lamento, querido. Você não vale tanto. Sua fé não passa de autoelogio”. Fui bloqueada na hora. Acha que peguei muito pesado? Você sabe que não perderia uma chance de judiar do safado. Depois, o céu não costuma se intrometer nos problemas terrenos. O carinha lá de cima poderia, num estalar de dedos, conter a ascensão de ditadores, do dólar e do meu colesterol. Seria muita sacanagem escolher o Rui.

É isso, menina. Escreva sempre que puder e tente não se contaminar pelo vírus ou por minhas palavras ranzinzas. Quando a peste arrefecer e o preço da gasolina permitir, faço uma visitinha. Beijos.

A.

Posted in Água de Chocalho.

10 Comments

  1. Parabéns, Fernando Suassuna.
    Uma riqueza esse texto que me tocou os sentidos: Olfato, visão, tato, audição e paladar. Te digo isso para que saibas o grau de intimidade que o texto me provocou.
    Muito obrigado!

  2. Caro Fernando, que lindo texto. As palavras, quando usadas com bom gosto e inteligência, tem a força das tempestades e também da visão que temos de um rio calmo, que nos faz pensar melhor, de preferência sem o som sertanejo ao fundo não é? Grande abraço meu querido, sou seu fã, hoje e sempre!

  3. Véio, queridão!!
    Genial, mano!! Sempre com bom humor pra tocar nas feridas. Texto muito sagaz, como de costume!! Sou fã!! Abraços!!

  4. Em um encontro na ilha da música comentei com você da inteligência dos seus textos, faço as palavras de Airton Guimarães. Sou fã de sempre!
    Abração

  5. Delícia de texto !
    Poucos autores conhecem nuances tão particulares da alma feminina que possibilite compor uma “Extraviada 13” com tanto bom humor e competência.
    Na música/poesia conheço três que merecem citação e reverência: Chico, Capinam e Abel Silva.
    Parabéns, Fernando Suassuna. Agora são quatro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *