Extraviada 12

Querida,

Adorei receber notícias suas.

Quer saber como chegamos aqui, né minha filha? Confesso que já nem lembro como tudo começou. Acho que no início eram só pessoas querendo respostas simplórias para problemas complexos. Depois acharam uma voz ou foram por ela achados. Inflamaram-se. Reverberaram o discurso raso da truculência e da intolerância. Unidos na imagem e semelhança da barbárie, pariram um culto à personalidade com ares de transtorno de personalidade. Foi assim. Ou quase. Perdão se não me expresso com nitidez. Além de clareza, falta-me, cada vez mais, paciência.

Não vou dizer que chegamos ao fundo do poço porque ainda cavam. E com vigor redobrado. Sei que é próprio da democracia ver sujeitos desqualificados chegarem aos altos cargos. Normal. Para os equívocos existe a alternância. Não é isso o que espanta, mas sim ver essas pessoas virarem objeto de devoção.

Seguimos ao sabor das correntes como merda na água. Quem não se sente perdido, das duas uma: ou está desinformado ou encontrou a paz de alguma crença fundamentalista. Admito que tem sido difícil manter o equilíbrio, se é que já o tive. É preciso estar atento e forte e também um pouco ébrio.

Aqui embaixo, a defesa da vida tem tomado aspectos muito estranhos. Para você ter uma ideia, tentaram – em nome de Deus – impor o nascimento de um filho a uma criança violentada. Por outro lado, os defensores dos bons costumes seguem indiferentes à sorte dos povos indígenas e às florestas que ardem. O Criador devia escolher melhor suas companhias. Acho que agora entendo minha preferência pelos desajustados como você: as pessoas de bem são assustadoras.

Caso Charles Darwin viesse ao nosso país hoje, seria obrigado a rever suas conclusões evolucionistas. Estamos subvertendo a lógica que explica os animais arriscarem a própria vida para defender a prole. Imagine que, em tempos de pandemia, um grupo de pais foi às ruas pedir para que seus filhos voltem às aulas presenciais. Sim, arriscam a sobrevivência de seus próprios genes em nome sabe-se lá de quê. Somos um Galápagos pelo avesso.

Não, você não teve um dèja vu. Prenderam mais um governador do Rio. É verdade. Aqui é a farsa que se repete como história e não o contrário. Vida que segue. E segue sempre agitada nos trópicos: os bares e praias já estão lotados; as teorias conspiratórias são cada vez mais criativas e a Louis Vuitton planeja lançar uma marca de arroz.

Enquanto a pandemia não passa, passa boi, passa boiada e se deixar, passam a mão na bunda da gente. Agora vou tomar meus tragos diários, que esse é meu novo normal.

Beijos.

Posted in Água de Chocalho.

6 Comments

  1. Amei estou no grupo dos “não sei que fazer nessa realidade” mas sigo mesmo assim na minha maneira de ser resistente faço sua voz a minha ❤

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