Duas Histórias da Cena Rock Potiguar dos Anos 80

NAS QUEBRADAS DO ROCK, LITERALMENTE!

Nos anos 80, em Natal, o poeta e agitador cultural Carlos Gurgel organizou uma noite de rock na antiga danceteria do clube do América. Gurgel sempre antenado e antropofágico convidou bandas de diferentes tribos. Mas de antropofágico o evento virou antropotrágico. Na época os punks e metaleiros eram inimigos. Pois tinha banda punk, de heavy metal, entre outras. Nessas entre outras acho que se encaixou o Modus Vivendi. Quando começou o show do Modus e eu comecei a cantar escutei da galera: “Isso né rock não, porra!” Quando entrou Marcelus Bob e o Grupo Escolar as cordas da guitarra dele quebraram e ele passou um bom tempo do show trocando as cordas. O público ficou impaciente. Mais impaciente ainda quando Marcelus começou a repetir no microfone enquanto desafinava as cordas e o coro dos descontentes: “Vocês estão gostando do show? Já está quase terminando”. Não lembro muita coisa dessa noite. Mas sei que houve quebra quebra, e na briga entre punks e metaleiros o banheiro ficou destruído. Gurgel me contou que no final da festa, ele sentado no chão, desolado, com a mão na cabeça, foi surpreendido por um metaleiro de uma banda que chegou todo animado, dizendo: “Gurgel, Gurgel! Massa demais! A gente quer que você seja nosso empresário!”

MAS PRA VOCÊ EU DOU!

Nessa época viajei um pouco com o Modus Vivendi pelo interior. Fomos para Mossoró algumas vezes, e sempre muito bem tratados, era como se fôssemos os Rolling Stones do RN. Teve uma dessas idas a Mossoró que nos marcou bastante. Depois do show, na casa que ficamos hospedados e que o dono da boate onde tocamos encheu a geladeira de cerveja, rolou festa noite adentro. Os papos foram ficando cada vez mais picantes e as groupies chegaram mandando ver. A galera da banda foi fugindo um a um para as redes já armadas na sala. Lembro que eu ainda sendo um dos poucos da banda ali naquela roda, estava escutando a conversa de uma menina do meu lado que contava para todos que nunca tinha feito anal, coisa e tal. “Nunca dei”, disse a menina que de repente se virou pra mim e disse: “mas pra você eu dou!” Pense nuns rockeiros frouxos! Brincadeiras à parte, embora isso tenha sido verdade, havia outra verdade: a aids tinha chegado e estava assombrando todo mundo. Vivíamos aterrorizados. A profaníssima trindade sex, drugs & rock’n’roll foi ameaçada por uma nova realidade com a qual tivemos que aprender a conviver.

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