Coágulos de Sol

(Para Valéria Oliveira)

Ontem conversei com Valéria Oliveira, por ocasião de seu aniversário, sobre “devaneios tolos a me torturar”. Isso é de uma música de Zé Ramalho (a clássica “Chão de Giz”) e não citei isso por acaso. É sobre Zé Ramalho que (também) conversamos e é sobre Zé Ramalho que eu quero falar. O fenômeno Zé Ramalho é algo, para mim, difícil de explicar, mas não difícil de ser entendido. Tem a força e o mistério dos rituais. Letras doidas, doídas, complexas, cantadas como hino por gente simples, como se fosse simples analisar assim. Que tolo eu! Até porque o sertão, o interior, para quem lá vive, tem densidades específicas e conhecimentos que povoam também outros lugares como a Grécia e a Turquia nos Pavões Misteriosos da vida. Mas isso é assunto para escolados e descolados como Clotilde Tavares, estudiosa dentre tantas coisas, desse unir-verso. Depois de uma taças de vinho eu vou mesmo é devanear.

Já vi Zé Ramalho jogar um violão no chão, em um show no auditório do Centro de Convenções, porque um cara da platéia atrapalhou ele durante a execução de uma música. Ele ficou puto e saiu do palco. Depois voltou e se desculpou. E explicou e pediu para o cara e para ninguém mais fazer aquilo porque aquelas letras são difíceis e qualquer coisa atrapalha a concentração e tal, algo assim ele disse. Justo. Porque quando escuto e acompanho cantando suas músicas eu entro numa espécie de transe. E acredito que aquele povão cantando deve sentir algo assim. Como numa missa, numa liturgia.

Dizem que a meditação é o não-pensar e para os orientais isso é mamata. Para nós, ocidentais que não conseguimos simplesmente não-pensar, foram inventadas técnicas para se conseguir a meditação. As letras de Zé Ramalho não existem para serem entendidas e sim para serem sentidas. E parece que o povo entende isso, sente isso. Você vai escutando, vai cantando junto, e dá uma onda, um barato. Para mim é lisérgico, psicodélico, alucinante. Me leva, me eleva, para os estados alterados da mente. Monte Olimpia, Minerva, cordéis encantados pegando fogo. Outras terras, outros mares, outro rumo, “escuto a gargalhada de Netuno”.

Em 1979, quando comprei o LP “A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu”, peguei minha magrela (bicicleta 10 marchas Monark verde-limão) e fui pedalando para a casa de meu amigo Auridan pra gente escutar o disco juntos. Zé Ramalho nos leva a rituais.

No seu disco-solo de estréia eu viajava demais por ter Patrick Moraz (que foi do Yes) comungando o rock progressivo na faixa “Avohai” e Sergio Dias Baptista (leia-se, escute-se, Mutantes) distorcendo o mundo na faixa “A Dança das Borboletas”. Parece que o mundo se apequenou depois disso. É verdade que bem antes, no disco Paêbirú, com Lula Côrtes, o mundo era mais épico mergulhado num caldeirão.

Agora que a onda aumentou na endorfina do escrever, e não sei mais para onde vai o texto, só sinto: “Neblina turva e brilhante / Em meu cérebro, coágulos de sol”.

 

 

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3 Comments

  1. Você sabe dizer se ele ainda faz aquele show em Santa Luzia anualmente? Quando eu morava em Caicó, todo ano ele fazia e todos os meus amigos, primos, meu irmão, todos os jovens livres iam, menos eu, que era uma prisioneira da rigidez coronelesca de papai. A cidade ficava vazia e eu não tinha nem com quem conversar, adorava suas músicas, ouvia com meu primo Rubens, que sempre me apresentava as novidades da música, os lançamentos, e vejo como você fala dos discos, das parcerias nas músicas, era muito rico ter um lp com encarte, pra gente ler, se apropriar do trajeto de uma música até ela ser prensada ali, talvez faça falta esse estímulo à curiosidade. O fato é que eu me devo essa viagem a santa luzia.

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