Cinema, História e Rivotril

Nos anos 60, o antropólogo, sociólogo e filósofo Edgar Morin uniu-se ao etnólogo Jean Rouch para produzir o documentário “Crônica de um verão”. A obra viria a ser o filme seminal daquilo que se convencionou chamar de Cinema Verdade. Essa abordagem não esconde a intervenção do realizador no mundo que deseja registrar. O cineasta mostra sua interação com as personagens, deixando-se ver e ouvir.

O Cinema Verdade, ao contrário de outras escolas do documentário, assume a impossibilidade de representar fielmente o mundo real. Afinal, a mera escolha do que deve ser cortado ou não, já implica em manipulação. Entrevistas também não são garantia de veracidade. Entrevistados podem mentir e atuar. Diante disso, nasce uma postura mais honesta: não se pretende registrar uma verdade incontestável, mas a verdade que surge da interação entre quem filma e quem é filmado. Trata-se, portanto, de uma busca pela verdade do cinema e não pela verdade no cinema.

Logo no início do filme, num exercício de autorreflexão, os franceses perguntam a Marceline se é possível manter a naturalidade diante da câmera. “Isso não vai ser fácil”, responde a entrevistada. Não mesmo. Qualquer pessoa, ao saber que está sendo filmada, estará representando em algum nível.

A discussão sobre o que distingue a ficção do documentário é antiga e está um bocado desgastada. Mas as novas tecnologias continuam forçando os limites entre mundos imaginários e reais. Numa época em que todos carregam no bolso suas próprias câmeras – e a cultura incentiva o registro e o compartilhamento contínuo de atividades cotidianas – talvez estejamos vivendo grande parte de nossas vidas como uma encenação.

Entre as tantas receitas de felicidade pregadas por coaches de todos os tipos, as fake news, os efeitos odiosos das bolhas sociais e a mendicância de likes, manter a sanidade está cada vez mais difícil. O mundo virtual está fazendo as pessoas adoecerem na vida real. E a comunicação de certas autoridades – elaborada para causar impacto em um público cativo e acrítico – dá uma inestimável contribuição nesse sentido. Isso inclui renegar a ciência e a história para manter uma versão pessoal dos fatos. Parte da sociedade aceitou entrar nesse jogo perigoso. Em “Origens do totalitarismo”, Hannah Arendt alerta: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção…”.

Em 1933, ano em que Hitler foi nomeado chanceler, Luiz Buñuel lançou o filme “Terra sem pão”, considerado um precursor do falso documentário. Na obra, o surrealista explora a paupérrima região de Las Hurdes, na Espanha. Em contraste com as imagens devastadoras, uma narração indiferente apresenta a miséria da comunidade. O narrador chega a insinuar, em alguns momentos, que a situação miserável é culpa dos próprios hurdanos. Qualquer semelhança com o atualíssimo discurso neofascista, que demoniza minorias ao redor do planeta, há de ser mera coincidência.

O filme do gênio espanhol incomoda qualquer um que não tenha uma moela no lugar do coração. Ao final da película, oportunamente, uma cartela alerta contra o perigo do fascismo que rondava a Europa.

A maior contribuição do Cinema Verdade talvez tenha sido situar o problema da verdade. Isso nunca foi tão relevante. “Crônica de um verão” acaba com Morin e Rouch discutindo os resultados do seu trabalho. A conclusão foi profética: “Nós estamos em apuros”.

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