Aeroporto

Já fazia muito tempo que tinha recebido um convite e de pronto decidi aceitá-lo pondo-me a trabalhar.

Desde o momento que o abri até hoje, já se passaram quatro meses inteiros de pesquisa e desenhos. Porém a vida sempre dá um jeito de nos abarrotar de milhões e milhões de coisas e o tempo foi passando.

Resolvi reler o convite:

Ao Sr. blablablá é de nosso imenso prazer convidá-lo para uma exposição de trabalhos sobre a blablablá ficaremos honrados com sua participação, para tanto é primordial que seu trabalho seja entregue até o dia dezessete de março do corrente ano para a apreciação de nossos juízes…”

dezessete?! – meu olhar se voltou rapidamente para a antiquada mas ainda eficiente folhinha do calendário em cima da mesa.

dezesseis… balbuciei baixinho como que sem ar.

De repente, vi passando em minha frente todos os dias que não dormi, as pesquisas realizadas e o tempo gasto da minha pobre vida para desenvolver esse trabalho, porém apesar de quase pronto, não sei por qual motivo, o esqueci em uma das várias pastas do meu pc. Como postá-lo a tempo de chegar em Barcelona? Seria impossível.

calma! – tentei manter a sobriedade que nunca tive e cogitar todas as possibilidades que teria para reverter a situação. Inútil. Decidi, por falta de opção, mandar tudo a merda. Levantei-me da cadeira, estava decidido, tomaria um banho, uma cerveja bem gelada e iria ver TV.

talvez esteja passando algum filme que me faça esquecer o acontecido. Assim o fiz.

Desliguei o computador, sai cantarolando, tomei meu banho, peguei a breja gelada no freezer e me dirigi à sala. Liguei a TV e coloquei em um canal qualquer. Após um longo e demorado gole, pensei:

Foda-se Barcelona! Esse evento era uma bosta mesmo.

Ali fiquei por um bom tempo curtindo o torpor momentâneo e tentando me convencer que não perdi nada significante.

Foda-se Barcelona! Esse evento era uma bosta mesmo.

A aparente calmaria foi quebrada com uma chamada no celular. Confesso que só devo tê-la ouvido lá pelo quarto ou quinto toque. As brejas fazem milagre.

Alô.

Oiiiii, sabe quem está falando? – era uma voz feminina, doce e ligeiramente familiar.

Não — respondi seco e aborrecido, afinal de contas acabou com minha “brisa”.

Sou eu, a Vera. Pensei rápido tentando lembrar de alguém que conhecesse. Várias fisionomias saltaram na minha cabeça.

Oi Vera, há quanto tempo hein? – lembrei.

— Muito tempo, sim. Estou ligando na correria, pois já estou indo embora amanhã. Foi tudo tão corrido que nem tive tempo para me comunicar com você. Hoje criei coragem e resolvi ligar.

— Que pena!!! – realmente era uma pena. Vera e eu tivemos um ótimo relacionamento, até mesmo no fim. Uma exceção dentro do meu padrão de relacionamentos.

— Mas para onde você está indo?

— Barcelona. Estou fazendo meu doutorado lá.

A imagem de um bando de ateus queimando no fogo do inferno logo me veio à mente: estava diante de um “milagre”.

— E quando você parte? – falei tão rapidamente que nem mesmo eu entendi.

— O que você disse?!

— Desculpe. Quando você embarca?

— Hoje à noite, por volta das onze.

Daria tempo para finalizar tudo e correr para o aeroporto. Ela poderia entregar o trabalho pessoalmente ou até mesmo pôr em algum tipo de sedex10 espanhol, sei lá. Valia a pena tentar.

Expliquei a Vera que tinha esse trabalho para ser entregue, sem entrar em muitos detalhes. Fazia anos que não nos falávamos e não queria expor assim minha burrice. Resumi tudo feito tarzan: “Trabalho – entregar – Barcelona” – e ela prontamente concordou em ajudar.

— É muito perto de onde faço o doutorado e tenho que ir lá amanhã à tarde, de toda forma. Eu entrego para você.

Isso soou como música para mim e depois de alguns “Como anda a vida?”, desligamos. Corri para o pc como se a cura para as mazelas do mundo estivessem lá. Nunca um computador demorou tanto para iniciar. Juntei tudo e imprimi. Olhei para o relógio e vi que tinha perdido algumas horas.

— Banho, comer algo e sair – uma hora e meia era tempo suficiente para chegar ao aeroporto.

Cheguei lá em 30 minutos. Em 35 estava no saguão do aeroporto sem fôlego e procurando Vera, mas ela me achou primeiro.

— Oooiiii, quanto tempo?

Veeeeraaa! – nunca fiquei tão feliz em ver alguém.

— Aqui está o trabalho. – prontamente entreguei.

— Não se preocupe, deixo eu mesma lá quando chegar – novamente a imagem dos ateus pegando fogo.

Após a missão cumprida sentamos para conversar. Rimos muito um do outro contando e relembrando inúmeros momentos bons que passamos. Ela estava tão linda quanto antes, eu mais velho e gordo – essa predileção do tempo por algumas pessoas é que me irrita.

— Mulheres geralmente não bebem cerveja – tentei me convencer que havia um motivo justo para o tempo não gostar tanto de mim.

Entre conversas, risos e nostalgia, ouvimos ao fundo e bem distante a chamada para o embarque do voo da 0h. Nos entreolhamos, levantamos da cadeira e corremos para o guichê da companhia aérea em um sincronismo de fazer inveja a qualquer dupla de nado sincronizado.

Em que posso ajudar? – perguntou a recepcionista com um sorriso irritante.

— Por favor, o voo para Barcelona das 23h? – perguntamos ao mesmo tempo, ensaiados como sempre.

— O voo saiu no horário estabelecido Senhora.- nem tirou o sorriso da cara, a infeliz.

Expliquei a situação e perguntei se não haveria um voo alternativo.

Nos 20 minutos que durou a busca da recepcionista da companhia por um outro voo, o silêncio entre eu e Vera só foi quebrado quando ela falou:

— Vou ao banheiro. – nem respondi. Não conseguia tirar os olhos da recepcionista.

Quando Vera voltou o silêncio continuou até a recepcionista dar a boa notícia:

— Daqui a vinte minutos, está saindo um voo que fará escala em Barcelona. Há assentos disponíveis, porém é um voo mais demorado e a senhora terá que pagar a diferença.

Minutos depois, estávamos abraçados em frente ao portão de embarque trocando beijos, com promessas de mantermos contatos, em uma despedida feliz.

Depois, já em casa, recebi uma mensagem de Vera dizendo que chegou tarde em Barcelona, mas mesmo no aeroporto antes de saber se conseguiria embarcar, ficou preocupada e, no caminho para o banheiro, viu uma filial dos Correios e postou o trabalho.

Desejou-me sorte.

Posted in Água de Chocalho.

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