Batendo na Porta do Céu

O senhor Latrini chegou aos portões do céu cheio de confiança. Levara uma vida irrepreensível. Orgulhava-se de ser cumpridor das leis e seguidor dos bons costumes. Não faltava a obrigações religiosas e sempre honrava os compromissos financeiros. Por uma questão óbvia de meritocracia, tinha todo o direito ao visto de entrada no além.

A área de desembarque estava lotada e caótica. Ficou surpreso com a quantidade de recém-chegados. Homem de espírito prático, tratou logo de se fazer útil. Numa rápida averiguação visual, foi capaz de identificar vários problemas no serviço de acesso ao outro mundo. Notou que a fila dos líderes religiosos movia-se mais lentamente que a dos ateus; o guichê dos funcionários públicos de primeiro escalão estava parado em relação ao das prostitutas; os entregadores de aplicativos gozavam de privilégios inaceitáveis e os índios dispunham de área VIP. O diagnóstico era claro: a inversão de valores apontava para uma gestão ideológica.

Sentiu as tripas que já não tinha se revirando. A praga do socialismo chegara à imigração celestial. Os malditos comunistas não se contentaram com a terra, o plano agora era acabar com o céu. Nem Deus na causa, pensou, desculpando-se logo em seguida pelo lapso.

No reino dos desencarnados o tempo parecia não seguir adiante, assim como a fila onde estava o eficientíssimo Latrini. Péssimo sinal. Sabia bem o quanto oficiais de imigração podiam ser insensíveis e até cruéis. Em vida, fora um deles. Um funcionário exemplar, registre-se. Se alguma vez chegou a pecar pelo excesso, terá sido apenas pelo elevado senso de responsabilidade no cumprimento de seus deveres.

Com desgosto, viu passarem à sua frente os tipos mais deploráveis: ativistas ambientais, pirralhas metidas a ativistas ambientais, feministas mal-humoradas, travestis intelectuais, artistas de vanguarda, professores veganos e todo tipo de gente inútil que ele mandaria imediatamente de volta aos seus países miseráveis.

Após uma eternidade que durou mesmo uma eternidade, o Latrini viu-se diante do guichê. Ficou atordoado ao constatar que o funcionário da imigração tinha a mesma aparência que ele. Pela primeira vez, não gostou de ver o próprio reflexo. A indiferença daquela voz soou bastante familiar:

– Documentos, senhor.

– Desculpe. Tive uma morte súbita. Não deu tempo de organizar a papelada.

– Lamento. Sem identificação, o senhor não pode entrar.

– Mas isso é injusto…

– Estou apenas cumprindo ordens.

– Mas são ordens absurdas. Não pode exigir isso de mim.

– O senhor, por acaso, nunca cumpriu uma ordem absurda?

– Exijo falar com o seu superior!

– Impossível. Mas o senhor pode preencher o formulário que se encontra no balcão ao lado e aguardar pelo julgamento no purgatório.

– É inadmissível que me tratem assim. Fui um membro importante na minha comunidade, um fiel devotado e um profissional impecável.

– Infelizmente, isso não conta muitos pontos aqui em cima, senhor.

– E o que diabos conta aqui em cima?

– Modere seu linguajar. Talvez o senhor não tenha entendido muito bem a mensagem do Criador.

– Não seriam vocês a entenderem tudo errado? Veja só essa gentalha que deixam passar na minha frente. Como isso é possível?

– Está em Mateus, vinte, senhor: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”. Interpretação de textos – sobretudo os sagrados – nunca foi o forte da humanidade.

– Isso não pode estar certo.

– O sistema é gerido por um algoritmo, senhor. É muito simples. Quem tem pontuação suficiente passa. Está tudo na nuvem. Sem nenhum trocadilho.

– Quero uma explicação lógica. Números, quero números.

– Muito bem. Vejamos o seu arquivo… Sabe aquele posicionamento a favor da pena de morte?

– Sim.

– Menos cinco pontos.

– Para vocês que moram aqui é fácil. A verdade lá de baixo é que bandido bom é bandido morto. Pronto, falei.

– O senhor acabou de perder mais um ponto, senhor.

– Até no paraíso, esse “mimimi”? Tenha dó!

– Estamos falando de um dos mandamentos, senhor. A regra é clara.

– E a promessa que fiz de ficar um ano em abstinência sexual? Isso não vale nada?

– Zero, senhor. Além de sexo não ser pecado, o Todo Poderoso não tem simpatia pela lógica mercantil.

Neste momento, um grupo de metaleiros, mortos em um acidente de avião, passou no guichê vizinho. Entraram sem problemas e ainda comemoraram fazendo chifrinhos com as mãos. Foram fuzilados pelo olhar do Latrini. O sósia da imigração alertou:

– Não julgueis para não serdes julgados. Com a mesma medida que medis, sereis medidos.

– Ora, quer saber de uma coisa? Esse lugar não serve para mim. Agora sou eu quem não quer mais entrar.

– Tem certeza? O senhor não vai recorrer?

– Vá para o inferno!

– Igualmente, senhor.

Posted in Água de Chocalho.

8 Comments

  1. E eu que não sei de quase nada, também não sabia de mais esse seu talento, meu amigo. Gostei! Parabéns!

  2. Máximo! muito bom Fernando o texto está recheado de humor com muita competência pra falar da desumanização dessa nossa sociedade com certeza o inferno vai estar lotado de “boas intenções” parabéns pela perspicácia em falar de coisas sérias por meio de uma leitura tão prazerosa.

  3. Simplesmente genial e delicioso de ler. Como ateu praticante tenho certeza de que vc retratou fielmente a realidade!
    Cada vez mais seu fã.

  4. Mais um texto de mestre!!! Valeu Veio!! Qualquer semelhança com fatos “reais” não terá sido mera coincidência… 🙂

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